Agosto de 2006
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cronológica, com os mais recentes em cima.
[16 artigos publicados neste mês]
Educação da sensibilidade -- de novo - 2006/08/30 - 09:58 AM
Mais um aniversário do suicídio de Getúlio Vargas - 2006/08/25 - 09:07
45 anos sem Jânio Quadros no cenário político nacional - 2006/08/25 - 08:36
Em 22 de Julho de 2003 escrevi (devidamente provocado por ela) uma carta à minha filha Andrea, que mora nos Estados Unidos, que estava preocupada com a educação de minha neta, Olivia, que tinha um ano e quatro meses naquela época. Foi uma carta longa (que pode ser lida na íntegra, em Inglês, em meu site http://www.trivium.org.br/).
Terminei a carta fazendo as seguintes sugestões a ela acerca da educação da Olivia (que traduzo do Inglês agora):
Primeiro, não se preocupe demasiado com a educação dela -- evite ansiedades: relache (relax), e desfrute (enjoy) a nobre tarefa de ajudá-la a aprender e a se desenvolver;
Segundo, ofereça a ela um ambiente cheio de amor (que, eu sei, você já faz);
Terceiro, ofereça a ela um ambiente rico em oportunidades de aprendizagem (que, também sei, você já faz);
Quarto, confie na curiosidade natural dela, no seu desejo de aprender: isso é, nela, quase um instinto de sobrevivência;
E quinto, afaste dela qualquer pessoa que tente fazer do aprender um ato compulsório, sem vínculo com vida, e, portanto, doloroso, entediante... E procure evitar que qualquer coisa sugira a ela que aprender é isso.
Na semana atrasada, em Sydney, Australia, eu folheava, durante uma reunião da Microsoft, um livro que meu amigo Bruce Dixon carregava com ele (Andy Hargreaves & Dean Fink, Sustainable Leadership [Jossey-Bass, San Francisco, 2006]). Ali encontrei nas pp. 18-20 uma defesa da noção de “Escolarização Vagarosa” (Slow Schooling), que os autores defendiam – e que me fez lembrar dos conselhos que dei à Andrea...
Eis como os autores conceituam "Slow Schooling”:
· Deixa para iniciar o aprendizado formal bem mais tarde
· Aumenta ao máximo a flexibilidade do currículo
· Enfatiza o prazer de aprender
· Reabilita o papel do jogo na aprendizagem
· Não pressiona a criança para aprender o que ela não está interessada em aprender
· Elimina ou reduz testes e provas
Cada vez me convenço mais de que a “nova escola”, a “escola do futuro”, a “escola do século XXI” deve procurar eliminar ao máximo as diferenças entre educação não-formal e educação formal, deve reintegrar a educação à vida, deve reunir o que meu amigo Hugo Assmann (que gosta de falar sobre a necessidade de “reencantar a educação” chama de “processos cognitivos” e “processos vitais” (que nada mais são do que a aprendizagem e a vida).
Se a tecnologia não fizer outra coisa além de derrubar os muros da escola atual e as paredes das salas de aula de hoje, reintegrando a escola ao mundo e a educação à vida, já terei nos prestado inestimável serviço.
Numa mesa redonda de que participei em Caraguatatuba, no último dia 24/8, em companhia de meu colega na UNICAMP José Armando Valente (que herdou o NIED que eu criei), bati nessa tecla.
Salto, em 30 de agosto de 2006
http://ec.spaces.live.com/blog/cns!511A711AD3EE09AA!1385.entry
[A crônica a seguir foi distribuída em minha lista de discussão EduTec.Net no dia 2 de novembro de 1998 -- quando ela nascia: tinha apenas 61 membros. Chegou a ter mil membros, quando a fechei, na seqüela dos atentados de 11 de Setembro de 2001]
Uma coisa que tem me preocupado é a seguinte: teria John Keating, de Sociedade dos Poetas Mortos, sido um melhor professor se tivesse um computador a ajudá-lo? Sinceramente, acho que não. Procuro rebater o que parece estar por trás dessa pergunta (aqui retoricamente feita por mim mesmo) afirmando que nem todo professor, infelizmente, é um John Keating. Um John Keating não precisa de ajudas (ancillae) -- a maioria de nós, sim.
Mas em seguida me lembro de uma linda passagem de John Steinbeck, em que ele observa quão penosa é a vida da escola, quão chatos os professores -- e diz: apesar disso, se você teve sorte, você encontrou uns dois ou três professores que fizeram todo o resto valer a pena, pois eles ajudaram a transformar a sua vida, a fazer de você algo que você não teria sido, não fossem eles. Os meus três, disse Steinbeck, tinham algo em comum: uma paixão enorme pelo que faziam, um entusiasmo fabuloso pelas coisas que estudavam e ensinavam, um poder de contagiar e motivar os alunos de modo a fazer com eles também ficassem envolvidos por aquela paixão e por aquele entusiasmo. Eles não nos diziam o que fazer, o que estudar, o que aprender: eles abriam janelas de oportunidades, descortinavam horizontes, impregnavam a gente com uma vontade incrível de aprender, de saber cada vez mais, com um amor pelo conhecimento e pela verdade que tudo o mais parecia perder a importância; eles mostravam que, se a gente quer alcançar conhecimento, quer alcançar a verdade, sobre seja o que o for, a gente tem que batalhar, lutar por ela, porque a verdade não é manifesta.
Quando a gente encontra um mestre assim, a vida nunca mais é a mesma. O que esses mestres nos transmitem não é dado, não é informação. Talvez seja conhecimento, mas é mais do que conhecimento: é o amor ao conhecimento; é mais do que a verdade: é o amor à verdade. Talvez esteja muito próximo de sabedoria.
Um mestre assim, com toda a probabilidade, não precisa de computador.
Michael Hammer disse, no livro que escreveu depois de Reengineering: educação é aquilo que resta depois que nos esquecemos daquilo que nos foi ensinado. Esquecemo-nos rápido do que nos foi ensinado -- se o que nos foi ensinado foi apenas conteúdo curricular, matéria, dado, informação pura e simples. Se nós tivemos sorte, o que resta, depois do esquecimento dos conteúdos que nos foram ensinados, é a curiosidade insaciável, é a vontade de aprender sempre, é o desejo de saber cada vez mais, é o inconformismo com respostas prontas, pré-fabricadas, com o dogmatismo daquele que se acha o orgulhoso possuidor da verdade em vez de se achar, como devia, seu humilde perseguidor.
Como é que a gente consegue ser um professor à imagem e semelhança de John Keating, ser um professor como um dos três que mudou a vida de John Steinbeck? Precisa computador pra isso? Mais: se a gente souber ser um John Keating, e tiver acesso a um computador, será que o computador ajuda ou atrapalha?
Tive mais sorte do que Steinbeck, eu tive mais do que três, tive cinco: Maria Elza Fiuza Teles, Ernst Manuel Zink, Dietrich Ritschl, Ford Lewis Battles e William Warren Bartley III. O primeiro desses professores, Dona Elza, só a conheci quando já tinha 18 anos completos. Os outros, só depois. O último, Bill Bartley, foi meu orientador de doutorado: convivi com ele quando tinha 27-28 anos. Apareceram tarde em minha vida, os meus mestres de vida. Mas apareceram, e, em parte, fizeram de mim o que sou hoje. A outra parte, quero crer, fui eu que contribuí. Meu terreno estava fértil e a época do plantio era certa.
Além desses cinco, tive mais três, virtuais, que me ensinaram por livros: David Hume, Karl Popper e Ayn Rand. Sou um indivíduo realmente de sorte.
Sem falsa modéstia, grandes questões são estas que levanto. Como todo bom filósofo, sou melhor para levantar questões do que para respondê-las. Sou melhor como agente provocador do que como quem aplaca provocações.
Assim, estou tentando provocar um pouco, para fazer com que os 61 membros do grupo, que por enquanto são apenas "lukers" (espreitadores, "moiteiros"), saiam da toca e se manifestem.
Eduardo Chaves
Transcrita em Salto, 30 de agosto de 2006, quase oito anos depois de escrita
http://ec.spaces.live.com/blog/cns!511A711AD3EE09AA!1384.entry
[Esta crônica foi distribuída na minha lista 4pilares, em 7 de setembro de 2003, dia em que completei 60 anos. Eu estava em Salzburg, Áustria, participando de um encontro sobre Inclusão Digital patrocinado, em parte, pela Microsoft. Meu terceiro neto, a que faço referência, nasceu dois dias depois, dia 9/9/2003, prematuro de seis meses, e com problemas, e morreu no dia 15/9, menos de uma semana depois.]
Comecei escrever esta crônica faz mais de três meses. Daí parei, por excesso de trabalho e falta de tempo... Além disso, parecia haver tempo suficiente até o dia. Mas o dia chegou: hoje, aqui em Salzburg, na Austria, cinco horas na frente de São Paulo, à 1h00 da manhã, sozinho no quarto de um castelo do século XVIII, celebro o meu aniversário. 7 de setembro de 2003: faço 60 anos hoje. Tomei um copo de vinho à meia-noite (zero hora). Está feita a celebração.
Quantos anos de vida ainda tenho eu? Não sei. Ninguém sabe. Dezoito meses atrás tive um enfarto que quase acabou com minha vida, antes de eu conhecer minha segunda neta, que nasceu em 11/3/2002, no dia em que saí do hospital. Hoje, dezoito meses depois, estou aqui preocupado com minha outra filha, que está no hospital, com risco de perder o meu terceiro neto, numa gravidez meio complicada que mal completou seis meses. Parece que a morte anda me rondando ultimamente. Depois do meu enfarto, sinto como se estivesse vivendo uma prorrogação: empatei o jogo no último minuto e ganhei mais algum tempo para tentar ganhar o jogo contra a morte. É um jogo de "morte súbita" -- termo funesto que era usado no futebol, hoje substituído pelo menos assustador "gol de ouro".
Mas se paro para pensar mais filosoficamente sobre o assunto, ninguém sabe quanto mais de vida vai ter. Gente nova e sadia pode morrer amanhã num acidente de carro -- ou por uma bala perdida, como a Fernanda da novela. Na área da saúde falamos em "expectativa de vida ao nascer": isto é, qual é o número de anos que se espera que uma criança que nasça hoje provavelmente vai viver. A expectativa de vida ao nascer não avalia a expectativa de vida de pessoas hoje vivas, como eu, que, provavelmente, já viveram muito mais do que era a sua expectativa de vida ao nascer, sessenta anos atrás... Mas mesmo uma criança que nasça hoje, em um país desenvolvido como a Áustria, em que me encontro hoje, e que tem, digamos, uma expectativa de vida de cerca de 80 anos, senão mais, pode morrer amanhã de causas acidentais ou congênitas. Meu terceiro neto, que até nome já tem (Guilherme), luta pela vida antes de nascer. Não pesa nem um quilo ainda. Fico aqui torcendo mais por ele do que por mim.
O destino -- ou Deus, para quem acredita nele -- me concedeu o privilégio de chegar aos sessenta. Privilégio, quero dizer, se olhamos para trás. Se olharmos para a frente, sessenta anos pode ser, para alguns, daqui a alguns anos, a idade madura -- ou, quem sabe, até mesmo o fim da adolescência. Há não muitas gerações era comum morrer aos trinta ou quarenta anos.
Quantos anos mais tenho para viver?
No interessante filme "About Schmidt", o personagem principal, Schmidt, representado por Jack Nicholson, se aposenta, no início do filme, aos sessenta e seis anos -- idade 10% maior do que a minha hoje. Sua aposentadoria vem depois de uma longa carreira como Analista de Risco em uma companhia de seguros. Estatístico por formação, sua tarefa na companhia era avaliar o risco, por parte da companhia de seguro, de aceitar diferentes propostas de seguro de vida. Nos primeiros dias de sua aposentadoria ela começa aplicar a sua especialidade a si próprio. Ele se faz a mesma pergunta com que comecei esta crônica: Quantos anos de vida será que ainda tenho? Dados os seus hábitos e o seu estilo de vida -- e levado em conta o fato de que ele nunca teve uma doença séria como câncer ou enfarto -- ele conclui que, provavelmente, ainda terá uns nove anos de vida pela frente. Isto, naturalmente, desde que as condições básicas de sua vida não se alteram, a saber, que ele continue casado com sua atual mulher e não altere drasticamente seus hábitos. Se sua mulher morrer, a equação é alterada. Se ele se casar de novo depois de viúvo, altera-se mais uma vez. Se se casar com uma mulher muito mais nova e cheia de vigor, altera-se de novo, agora drasticamente! (Neste caso ele pode até vir a falecer uns poucos dias depois do novo casamento...).
Vi este filme com minha mulher e com minha filha mais nova (que agora está grávida) e seu marido. Minha mulher e eu gostamos muito do filme. A geração mais nova, nem tanto. Não foi necessária muita reflexão para concluir porquê. Nossa realidade estava mais próxima do problema descrito no filme. Quando você é jovem, a morte parece ser algo distante...
Nunca tive coragem de perguntar ao meu cardiologista, depois do meu enfarto, quanto tempo de vida ele achava que eu ainda teria. Médico experiente que ele é, ele me disse, em minha primeira consulta depois da alta no hospital, que eu poderia viver até os 90 anos -- SE... um monte de ses se seguiram: se eu tomar os meus remédios, se eu me alimentar de forma sensata, se eu andar todos os dias, se eu não me exceder em atividades físicas ou em emoções extraordinárias... Tudo isso eu venho tentando fazer com seriedade quase religiosa...
Tempos atrás encontrei um site na Internet -- infelizmente me esqueci da URL -- que fazia aos visitantes uma longa série de perguntas sobre sua história de vida, sobre seus antecendentes familiares, sobre seus hábitos, etc., para lhes fazer uma previsão acerca do dia de sua morte. Lembro-me de que, no meu caso, minha morte foi prevista para o dia 23 de agosto de 2023 -- uns dias antes de eu completar 81 anos. Mas isso foi antes do enfarto... Provavelmente a data, hoje, seria antecipada um pouco...
Li, há alguns dias, uma crônica de meu querido amigo Rubem Alves. Ele fará setenta anos uns dias depois de eu completar sessenta. Somos ambos virginianos (como são muitos de meus grandes amigos). Lembrava ele o texto bíblico que dizia que a duração da vida humana é de setenta anos. Acima disso, diz a Bíblia, nada há a não ser canseira e enfado. Mas o Rubem não parece cansado e enfadado aos setenta anos. Espero chegar aos setenta com o mesmo vigor e o mesmo gosto pela vida que ele ainda exibe.
Passei a tarde da véspera de meu sexagésimo aniversário em uma excursão pelos lugares em Salzburg e nos arredores em que foi filmado A Noviça Rebelde -- filme que em Inglês tem o nome de "O Som da Música", "The Sound of Music". O ônibus da excursão tinha a placa "SOUND1" -- pela qual o motorista pagou 400 euros, segundo disse. Ao sair da excursão vim andando pela cidade velha de Salzburg e, ao lado da catedral, perto da estátua de Mozart, filho mais ilustre da cidade, havia um grupo de índios bolivianos tocando aquelas flautas tradicionais da região deles. A música? "Os Sons do Silêncio", "The Sounds of Silence"... Fiquei pensando: de um lado, o som da música, a vida, cheia de sons, cores, cheiros, gostos (de Apfelstrudel), sensacões alegres... (como vi na excursão). Do outro lado do rio Salzach, os sons do silêncio, a morte, o fim. Perto da Catedral -- comme il faut.
Ingrid Bergman, uma de minhas atrizes favoritas, que estrelou em Casablanca, filme que ganhou o Oscar de melhor filme no ano em que nasci, e que no mês passado também comemorou seus sessenta anos, um dia disse, em resposta a uma pergunta que lhe indagava como se sentia, envelhecendo e perdendo o virgor da juventude: sinto-me bem, porque a única alternativa que temos a envelhecer é morrer cedo...
Uma grande verdade. Ainda que morra agora, vivi bastante. Sessenta anos é muito. Mas embora seja bastante, não é o bastante: quero viver mais, para conhecer o Guilherme Chaves de Moraes Salles, que espero que seja paciente e fique na barriga da mãe o tempo necessário para enfrentar o mundo aqui fora; para ver o Guilherme brincar com o Gabriel (que este mês faz quatro anos, e que todo dia marca no calendário que falta um dia a menos para ele poder brincar de novo com o avô); para ver o Guilherme e o Gabriel brincarem com a Olívia, que está lá em Ohio, mas que já fala "Dudu", para se referir ao avô; e para fazer tantas outras coisas que em sessenta anos não foi possível fazer.
Agora vou dormir porque já são duas horas da manhã aqui. Acabei de ouvir tocar os sinos da Catedral de Salzburg. E amanhã (hoje) tenho reunião às 9h00
Transcrita em Salto, 30 de agosto de 2006
http://ec.spaces.live.com/blog/cns!511A711AD3EE09AA!1383.entry
[A crônica abaixo distribuí pela Lista EduTec.Net no dia 15 de Outubro de 2000. O Gabriel, mencionado na crônica anterior, já tinha feito um ano.]
Uma Cronica para o Dia da Criança e do Professor
Ontem tive um dia especialmente agradável com meu neto Gabriel, que fez um ano no último dia trinta, que ontem chegou a dar cinco passinhos seguidos, e que, modéstia à parte, me adora (não tanto quanto eu a ele, porém). Brincamos no chão da sala por um bom tempo, bagunçando as coisas da avó, que não achou muita graça na folia. Tirei as almofadas dos sofás, espalhei pelo chão e ele imediatamente descobriu que subindo na almofada conseguia subir no sofá agora desalmofadado, no qual ficava em pé e tentava subir nos braços. Um alpinista de marca maior. À tarde fomos ao Shopping Galleria, tomamos sorvete, e vimos a queda d'água artificial pela qual ele tem especial gosto.
Mas essas coisas só interessam a mim e, imagino, a ele. Por isso vou deixá-las de lado para refletir um pouco sobre a questao do título, passando, necessariamente, pela questão intermediária: de pais e filhos. Ouso esperar que essas reflexões tenham algo que ver com o Dia da Criança e o Dia do Professor, que, por coincidência, ficam pertos um do outro no nosso calendário festivo.
Lembro-me de que fiquei surpreso, há anos, quando li, num livro de cujo título não mais me lembro (mas que tenho na estante), uma discussão da questao: "Por que as pessoas têm filhos?". Em outras eras, os pais precisavam dos filhos para ajudá-los no trabalho -- filhos eram, principalmente, braços, mao de obra. Outros, aparentemente, ainda hoje têm filhos na esperança de que os filhos venham a cuidar deles na velhice -- ter filhos seria, para eles, como comprar apólices de seguro. Poucos têm filhos pensando no futuro da raça humana -- se ninguem tiver, o ser humano desaparece da face da Terra. Por fim, deixando de fora aqueles que têm filhos sem querer, parece que a grande maioria dos restantes têm filhos porque crianças são (por um tempo) um brinquedo muito gostoso -- ou pelo menos assim parecem.
Confesso que, quando a li pela primeira vez, a discussão me surpreendeu -- talvez porque nunca tivesse pensado muito seriamente no assunto. Lembro-me de que logo que me casei (pela primeira vez) estava convicto de que nunca teria filhos. Achava eu (refletindo o espirito dos tempos) que o planeta já estava super-populado e que eu deveria colaborar para que se alcancasse ZPG -- Zero Population Growth (Crescimento Populacional Zero): só podem (devem) nascer pessoas na justa medida requerida para substituir os que morrem. Como eu sabia que sempre haveria os exagerados ou os distraídos que iriam ter mais do que sua cota, eu estava disposto a doar a minha em benefício da qualidade de vida das gerações futuras.
Minha primeira filha, Andrea, não foi planejada -- foi, eu diria, fruto da distração a que me referi. Mas me encantei tanto dela que abandonei meu propósito de colaborar com a qualidade de vida futura no planeta Terra. Dois anos depois, já em outro casamento, tive outra, a Patrícia -- esta mais ou menos planejada (pelo menos, muito desejada). (Parece que pessoas que se unem quando os dois já foram casados antes e tiveram filhos nos casamentos anteriores têm uma certa ansiedade em ter um filho "seu mesmo", dos dois, para selar o seu compromisso, e assim foi comigo e com a Sueli, minha mulher). Foram as duas filhas que tive. Fiquei abaixo da media mundial e brasileira. Os outros dois filhos que tenho, a Tatiana (mãe do Gabriel) e o Rodrigo, a Sueli já os trouxe consigo...
Minha mulher, portanto, que já tinha dois filhos do primeiro casamento, tem uma media um pouquinho mais alta, três. (Minha ex-mulher, porem, colaborou para contrabalançar e só teve um, a minha filha).
Mas, voltando ao assunto. As crianças, especialmente até uma certa idade, são um brinquedo agradabilíssimo: em geral são bonitas (pelo menos para os pais [e avós]), são fofas, são bem dispostas, e, especialmente, sao interativas. O que os autores de programas de computador sempre souberam, e os produtores de programa de televisão estao descobrindo, é que a interação é essencial em qualquer brinquedo: você precisa brincar com alguém (ou alguma coisa) que lhe responda, que lhe dê feedback -- que, quando você chega, lhe sorri, vem correndo para os seus braços, lhe dá um "uta" apertado e um beijo lambuzado, e que, quando você vai embora, chora, quer ir junto... Quer coisa mais agradável do que isso?
Netos, como acertadamente disse alguém (o Toninho, meu amigo, professor em Campinas), são filhos com cobertura de leite condensado. É por isso que o Toninho, historiador consciente e engajado, compra revistinhas de Pokemon para o Pedro, neto dele. Na prática, o avô sucumbe ao neto, não vice-versa.
Na coluna do Millor na Folha de hoje ele faz o seguinte comentário -- por sinal, lidando com a história também:
"Como sempre gostei de história, sofro o engano de que o gosto continue na minha descendência. Noutro dia provei isso, mas de maneira inesperada, ao falar de história a meu neto, de nove anos. Espantado, ele perguntou: 'Ué, quando o senhor era criança já tinha acontecido muita coisa?'"
Embora na prática, seja o avô que sucumbe ao neto, e não vice-versa, o Millor reflete o sonho, oposto, de todo pai, de todo avô: o de que os nossos gostos se perpetuem na nossa descendência...
É isso aí. Fico imaginando como seria bom se o Gabriel se interessasse por filosofia... Já herdaria uma biblioteca de quase 5 mil volumes de livros de filosofia, só para ele -- visto que os possíveis concorrentes não estão nem um pouco interessados em filosofia...
Tenho certa inveja de meu bom amigo e também filosofo, Antonio Rezende - cujo filho Cristiano faz doutorado em Spinoza no Departamento de Filosofia na USP... (embora, se o filho fosse meu, eu preferisse Hume... -- e iria tentá-lo manter longe da Marilena Chauí...).
Os meus filhos (contando os do casamento anterior da minha mulher) são engenheiros (dois, um casal), uma administradora de empresas e uma dentista. Ninguém muito interessado em ler a Apologia de Sócrates, uma das obras filosóficas mais lindas que eu conheco. Quem sabe, portanto, um neto? Quem sabe o sorridente Gabriel? Precisamos de filósofos felizes como ele hoje é, desencucados, que tenham amor pela vida e pelas coisas boa que ela pode nos proporcionar.
Mas como despertar o gosto sem tolher a liberdade?
Transcrito em Salto, 30 de agosto de 2006
[Transcrevo, a seguir, uma mensagem que coloquei na minha lista EduTec.Net (que não mais existe) quase seis anos atrás, no dia 24 de setembro de 2000. Eu tinha 57 anos na época. Vou fazer 63 agora dia 7 de setembro. Meu neto Gabriel, mencionado no texto, então não tinha nem sequer um ano. Agora vai fazer sete (dia 30 de setembro), está alfabetizado, nada perfeitamente (já participou de competições) é exímio jogador de video game, joga futebol bem (freqüenta uma escolinha de futebol), faz judô... Aqui vai o texto de 24/9/2000]
Aos 57 anos estou, como Carlos Heitor Cony, tentando aprender ler os sinais e compreender a vida.
Também tenho um violão em cima do armário -- embora não seja herança. Comprei-o há 33 anos, nos Estados Unidos, e toquei-o muito pouco -- sempre havia algo mais importante para fazer. Sempre quis aprender a tocá-lo direito, mas nunca tive tempo... O urgente sempre impediu o importante de ocupar o seu lugar... Até agora.
Será???
Estou ouvindo uma enorme seqüência de mp3s de Billy Vaughn, Ray Conniff, Lawrence Welk -- e de Connie Francis, cantando boleros. Uma Macieira gostosa esquenta minha garganta. Se ficar com sono, depois do almoço, durmo.
Acabei de dar uma volta pelo bairro, com meu neto Gabriel, que fará um ano no dia 30, daqui a alguns dias. Andamos devagar, paramos para ver as florinhas dos jardins e para ouvir um bem-te-vi que cantarolava. Até a cachorros raivosos prestamos atenção -- e, miraculosamente, os ditos parece que pararam de latir e ficaram assustados com alguém que não se assustava com eles...
Um monte de coisas importantes meu neto vai aprender por si só ou com a ajuda de outras pessoas. Estou procurando dar aos nossos momentos de convivência um foco especial: o da educação da sua sensibilidade, para que eventualmente aprenda a apreciar a beleza que existe no mundo: a admirar as flores, as paisagens bonitas, as pequenas coisas que embelezam o dia-a-dia; para que eventualmente sinta o quão gostoso é uma música leve, melodiosa, sonora -- ainda que muitos a achem cafona; para que aprenda a sentir prazer em ficar sem fazer nada de útil, só vivendo e sentido o quanto é bom viver, quando se está realmente vivendo e se tem consciência disso. Para que ele não chegue aos 57 anos sem saber tocar violão direito... Nem aos 80 lamentando aquelas coisas todas que Jorge Luis Borges, plagiando ou não, lamentou não ter feito -- ou não ter feito tanto.
Os outros, provavelmente o pai e a mãe, se encarregarão de encaminhá-lo para uma profissão ou de levá-lo a apreciar as coisas refinadas e sofisticadas da vida. Eu pretendo me concentrar nas simples -- como o violão em cima do armário.
Meu sofisticado Pentium III reproduz Billy Vaughn tocando o que em Português era (creio que ainda é) "Acorda, Maria, que é dia, são oito horas e o sol já raiou; os passarinhos já fazem seus ninhos, na janela do teu bangalô".
É isso aí. Não chega a ser um sermão dominical. Uma pequena homilia, talvez.
Transcrito em Salto, 30 de agosto de 2006
Cláudio Minetto, meu amigo e irmão, levanta a questão do papel da emoção e da razão em nossa avaliação de obras de arte, especialmente romances e filmes. O que é que nos faz gostar de uma obra de arte: é seu apelo às nossas emoções ou à nossa razão. Essa é, nesse caso, uma falsa dicotomia. Eu defendo uma teoria meio racionalista das emoções. Emoções não são reaçoes, positivas ou negativas, de alguma faculdade autônoma que temos e que nos faz sentir uma coisa ou outra, de uma forma arbitrária. Nossas emoções são sentimentos que temos diante de determinadas coisas ou de determinados acontecimentos, mas esses sentimentos não são arbitrários: eles decorrem de nosso sentido da vida ("sense of life"), de nossos valores, de nosso sentido do que é próprio e certo. E nada disso é independente de nossa razão -- pelo contrário.
Assim, quando nos sentimos emocionados (de forma positiva) ao assistir a Scent of a Woman ou The Bridges of Madison County, o que está acontecendo é a nossa emoção respondendo ao nosso sentido de que é assim que as coisas deveriam ser -- embora infelizmente raramente o sejam. E essa percepção, na qual se baseia o nosso sentimento, é racional, não arbitrária.
Ayn Rand e Mário Vargas Llosa compartilham, até certo ponto, uma visão da arte, segundo a qual (parafraseando Rand) a arte é a nossa tentativa de recriar a realidade (i.e., inventar uma realidade) segundo nosso "sense of life", nosso sentido de realidade, nossos valores mais básicos. Falando especificamente da literatura, Vargas Llosa diz que ela consiste de mentiras que inventamos para dizer verdades que, no mundo em que vivemos, não têm correspondência com a realidade.
Em resposta a alguns dos comentários, vou tentar esclarecer um pouco o que estava na minha cabeça ao fazer a observação que o Antonio Morales cita, a saber:
"Discordo dos críticos que afirmam que o cinema e a literatura desengajados politicamente, 'inorgânicos', alienam, quando eles assumem que essa alienação é ruim. Eu acho que sem ela a vida seria muito mais pobre e muito mais difícil de viver".
Note-se que eu disse: "Discordo dos críticos que afirmam que o cinema e a literatura desengajados politicamente, alienam"
Esse enunciado citado claramente não é um enunciado artístico (literário) -- enunciado, digamos, de primeira ordem lógica. Nem é um enunciado metaliterário, como os que fazem os críticos de arte, isto é, um enunciado, de segunda ordem lógica, sobre obras de arte, em geral, e a literatura, em particular. O enunciado é de terceira ordem lógica. Seu objeto não é a obra de arte, mas, sim, o que dizem os críticos de arte sobre as obras de arte. Essa terceira ordem lógica é o domínio da filosofia: no caso, da filosofia da arte -- um ramo da filosofia que alguns chamam de estética.
Não tenho maiores problemas com quem faz arte "engagée", "partisanne", etc. Pelo contrário. Adoro os romances de Ayn Rand , que, no meu julgamento, estão entre as melhores obras de ficção jamais produzidos pela literatura universal. No entanto, dificilmente vai haver uma literatura mais "engagée" e "partisanne" do que a dela (engajada e tomando partido em favor da liberdade individual e do liberalismo mais radical do século XX). Também não tenho maiores problemas com críticos literários que avaliam esse tipo de arte, quer eles a elogiem, quer eles a critiquem, por qualquer razão que hajam por bem invocar.
Tenho sérios problemas, entretanto, com quem defende uma filosofia da arte que afirma, por razões puramente ideológicas, que a literatura (ou a arte) não "engagée" e "partisanne" -- leia-se: não engajada e partidária em geralmente em favor do comunismo ou do socialismo, ou da revolução social, ou do igualitarismo, etc. -- é "alienante". Esses filósofos da arte, se confrontados com uma literatura como a de Ayn Rand, que certamente é "engagée" e "partisanne", questionariam o engajamento e a tomada de posição dela, afirmando que engajamento e tomada de posição "do lado errado" não contam... -- assim mostrando que o que criticam não é a falta de engajamento e de tomada de posição, mas a ausência de um engajamento e de uma tomada de posição que eles favorecem e privilegiam.
Ao mesmo tempo em que gosto de uma literatura como a de Ayn Rand, engajada e compromissada com a causa liberal, nunca defendi a tese de que toda literatura, ou toda arte, deva necessariamente ser engajada e comprometida para ser boa. De modo algum. Muita arte "engagée" e "partisanne" eu acho um lixo. E, por outro lado, há arte, como a manifestada nos filmes Scent of a Woman e The Bridges of Madison County, que não é "engagée" e "partisanne" em nenhum sentido válido desses dois termos. Esses filmes lidam com problemas humanos, com problemas da condição humana, como diria André Malraux, sem dúvida alguma -- mas são, em grande medida, problemas pessoais, individuais, não algo que se pudesse qualificar de problema social, quanto mais político. Há, num e noutro filme, leves pinceladas de crítica social, ou melhor, crítica dos costumes (quando, por exemplo, em Scent of a Woman, se ridiculariza as escolas privadas americanas que tentam imitar as britânicas, ou, em The Bridges of Madison County, se ridiculariza a bibilhotagem e a fofoquice da sociedade rural de Iowa). Mas isso não permite qualificar os filmes como exemplos de engajamento e comprometimento com causas políticas. No entanto, apesar dessa sua natureza totalmente a-política, os dois filmes são geniais, enquanto arte.
Espero que isso esclareça o que eu penso.
Em Campinas, já em 28 de agosto de 2006
Filmes. Literatura. Como seria nossa vida sem eles e as histórias que nos trazem? Certamente muito mais pobre.
[Volto a esse tema em decorrência de algumas mensagens trocadas com meu amigo Julio de Angeli, a quem agradeço não só por ter me provocado a refletir, mas por ter me autorizado a dizer que foram seus e-mails que me fizeram voltar ao tema. As citações do roteiro são de uma chamada primeira versão encontrada na Internet, em vários sites. Pode não corresponder exatamente à última versão. Algumas partes dele evidentemente acabaram fora da versão final -- seja do próprio roteiro, seja da versão editada do filme.]
Escrevo enquanto ouço “Por Una Cabeza”, o tango de Scent of a Woman / Perfume de Mulher, que Al Pacino (Coronel Frank Slade) e Gabrielle Anwar (simplesmente Donna) dançaram no que talvez seja a cena mais tocante do filme (a competição com o discurso de Pacino / Slade diante da assembléia estudantil é dura).
Um dos detalhes que me chamou a atenção naquela cena é que Gabrielle / Donna havia acabado de atravessar um furacão emocional nos braços de Pacino / Slade. O namorado dela, David Lansbury (simplesmente Michael no filme) , chega, a seguir, para levá-la a outro local. Nem nota que a namorada está em estado de graça, que parece ter tido uma ‘visio beatifica’... Quando estão saindo, ele nem percebe que ela olha desesperadamente para trás, aparentemente esperando, em vão, que Pacino / Slade ou, quem sabe, Chris O’Donnel (Charlie Sims), fizessem algo que a ajudasse a fazer daquele um momento perpétuo... Mas a decisão seria dela, e, assim, eles não fazem nada e ela vai para o que, em comparação com o momento vivido, será inevitavelmente a mediocridade do encontro que o namorado preparou para ela.
Michael está junto da namorada -- e, claramente, não é cego. Mas ele não percebe coisas que o cego coronel percebe sem precisar ver... Sensibilidade é isso. Em poucos minutos, o Coronel Slade decodificou, por assim dizer, aquela alma feminina na sua frente. Primeiro, pelo olfato refinado: de longe percebeu que ela havia tomado banho com Ogilvy Sister's Soap. Depois, pela conversa, com a qual a convenceu a dançar com ele, mesmo ele sendo cego e ela não sabendo dançar direito. Por fim, pelo tato e pelo movimento na pista de dança. Seu namorado a via todo dia, certamente transava com ela -- mas não a conhecia como aquele cego ficou conhecendo em poucos minutos de interação...
Há dias escrevi algo aqui sobre o destino de meus hard disks e, na crônica, mencionei que nossos parentes (cônjuges, filhos, etc.) em geral não conhecem a gente. Mencionei, naquela crônica, o filme The Bridges of Madison County / As Pontes de Madison, outro filme cheio de detalhes cheios de sensibilidade. O filme foi dirigido (e interpretado) por Clint Eastwood – ex-“Dirty Harry” e ex-prefeito de Carmel, CA, EUA.
No filme, na carta que Francesca Johnson (Meryl Streep) deixou para seus filhos, contando a eles de seu "affair" extra-conjugal, até então desconhecido deles (e de todo mundo), ela diz:
"Primeiro, e acima de tudo, eu amo vocês dois muito. Embora eu esteja me sentindo bem, cheguei à conclusão de que chegou a hora de colocar os meus negócios ('affairs') em ordem -- se vocês podem me perdoar o trocadilho. . ." [O filho, aqui, ouvindo a irmã ler isso, revoltado afirma: "Não posso acreditar que ela esteja fazendo piada sobre isso..."]. . . É duro escrever de coisas assim para meus próprios filhos. Eu poderia decidir deixar que esse segredo morresse com o resto de mim, suponho. Mas, quando a gente vai ficando velho, a gente perde os medos, ou resolve ignorá-los. O que se torna mais importante é se deixar conhecer -- ser conhecido por tudo aquilo que você fez durante essa curta vida. Quão triste me parece deixar esta vida sem que aqueles que você mais ama realmente saibam quem você foi... É fácil para uma mãe amar seus filhos, não importa o que aconteça -- isto é algo que simplesmente acontece assim. Vocês estão sempre tão bravos por causa da maneira errada com que nós os criamos. Mas eu achei que era importante lhes dar uma chance: a oportunidade de me amar por aquilo que eu realmente fui... O nome dele era Robert Kincaid. . . Está tudo lá nos três cadernos. Leiam os cadernos em ordem. Se vocês não quiserem ler, suponho que essa decisão seja okay também. Mas, nessa hipótese, quero que vocês saibam de uma coisa: nunca deixei de amar seu pai. Ele era um homem muito bom. Só que meu amor por Robert era diferente. Ele foi capaz de descobrir em mim coisas que ninguém, nem eu mesma, sabia que estavam lá, e que ninguém mais soube desde então. Ele me fez sentir como uma mulher de um jeito que muito poucas mulheres jamais têm condição de experimentar. . ."
Eu me emociono com os inúmeros detalhes sensíveis do filme. É difícil imaginar o “Dirty Harry” Clint Eastwood tendo tanta sensibilidade. Mas ela está lá -- é verdade que de certo modo comandada pelo bom roteiro de Richard LaGravenese, que melhorou muito (na minha opinião) o livro em que se baseou o roteiro, de autoria de Robert James Waller. Mas nenhum bom roteiro substitui uma direção competente. Como diz Sean Pflueger, “Okay, o roteiro de Richard LaGravenese para 'As Pontes de Madison'' é um ‘salto gigantesco para a humanidade’ em relação às poças de lama que é o romance de Robert James Waller. Mas é a direção de Clint Eastwood e os desempenhos de Eastwood e Meryl Streep que torna a canção para banjo que Waller escreveu em uma ópera”. [Em Entertainment Weekly, http://www.ew.com/ew/article/commentary/0,6115,525659_1%7C8273%7C%7C0_0_,00.html].
O detalhe da “screen door” da cozinha, que todos (marido e filhos) deixavam bater, e que feria as emoções de Francesca mais do que os seus ouvidos – mas que Robert Kincaid (Clint Eastwood) segurou, impedindo que batesse, provocando um sorriso leve nos lábios de Francesca, como se ela dissesse, pra si mesma: “Finalmente alguém sensível, que não gosta de ouvir barulho como eu...”
Diz o roteiro: "Michael [o filho] entra na cozinha, vindo do quintal, e deixa a screen door bater forte, com um barulho. Francesca lhe diz: 'Michael, o que foi que eu lhe falei sobre essa porta?' Em seguinda entra Richard [o marido], deixando a screen door bater de novo, do mesmo jeito. Francesca quase diz algo, mas desiste".
O detalhe do rádio... seja na cozinha, seja no carro. Ela procurava sintonizá-lo em estações de música leve, geralmente clássica ligeira, baixinho, agradável. Havia aprendido a gostar desse tipo de música na sua Itália nativa. O marido e os filhos, desrespeitando a sua preferência, sempre mudavam a estação, colocando o rádio em estações que tocavam estridentes músicas country, certamente apreciadas na região de Iowa. Quando Kincaid sintonizou o rádio e o colocou em uma estação de Chicago que tocava um blue suave com Dinah Washington, acompanhada por saxfone, Francesca ficou convicta de que estava tratando com alguém diferente...
Como a screen door, o rádio era uma fonte de irritação constante para ela, que ninguém ao seu redor parecia perceber -- ou que, se percebia, não parecia se importar.
Depois, Francesca tomando banho e imaginando que ali, momentos antes, ele havia tomado o seu... Na banheira dela. A água que acariciava seu corpo devia sentir como mais tarde iria sentir a mão dele...
A dança dos dois. O dilema de Francesca diante da tensão emocional que aumentava e tornava inevitável a tomada rápida de uma decisão: fazer amor com ele? A não tomada de uma decisão ali seria uma decisão. Era o “either-or” kierkegaardiano.
Mais tarde, uma decisão ainda mais difícil. Deixar a família e ir embora com Robert Kincaid ou continuar na mesma vidinha monótona de sempre... A mão na maçaneta de camioneta, querendo abrir a porta, mas, também, ao mesmo tempo, lutando para não abri-la...
E mais um sem número de detalhes.
Ao começar a relatar o seu "affair" aos filhos, Francesca afirma que, pouco antes de encontrar Kincaid, andava inquieta, sem saber exatamente por quê.
"Suponho que sua entrada em minha vida foi, de muitas maneiras, preparada, durante semanas, talvez meses, antes de nos encontrarmos. Havia em mim uma inquietação, um sentimento inquieto. Vinha, como se fosse, do nada, sem nenhuma causa aparente. Nada causa mais medo a uma mulher que tem estado 'assentada' por quase vinte anos do que, subitamente, se sentir 'desassentada'... Não sei quando começou."
Ela só o percebeu retrospectivamente, esse sentimento de inquietação em seus sentimentos, essa forma de sentir-se "desassentada", fora de lugar...
O que fica evidente no filme é que, apesar do amor que sentia pelo marido e pelos filhos, e da rotina que a vida em uma fazenda em Iowa havia estabelecido, ela odiava aquele lugar e a sua gentinha medíocre.
Robert Kincaid percebeu isso à primeira vista.
Sentindo a dimensão do problema, ele pergunta a ela como era o seu marido (que ela havia encontrado durante a Segunda Guerra na Itália, conforme acabara de lhe contar). Tudo o que ela consegue dizer é: "Muito trabalhador. Muito honesto. Se preocupa com a gente. É gentil. Um bom pai". (Isso me faz lembrar um conto de Monteiro Lobato: "Coitada da das Dores... Tão boazinha!" Boazinha era tudo o que se conseguia dizer de bom a respeito dela).
Ele vai adiante. Pergunta como é a vida em um lugar pequeno em Iowa: "Então você deve gostar aqui de Iowa, eu suponho..." Ela hesita. Ele diz, como se soubesse o que ela vai confessar: "Pode dizer: fica comigo, eu não conto pra ninguém..." Ela se surpreende. Não só ele sabe o que ela vai dizer, mas ele de antemão lhe assegura que ele entende o que ela sente, e que sabe que aquele sentimento tem sua razão de ser. Ela hesita mais uma vez, ele lhe sorri e faz que sim com a cabeça -- e ela explode: "Eu odeio isso aqui..."
Ao acabar sua explosão, ela se sente esgotada, totalmente exposta -- mas aliviada. Alguém sabe o que ela sente, e o percebeu antes mesmo de ela tomar consciência do fato e ser capaz de verbalizá-lo. E, acima de tudo, não a criticou por se sentir assim, referendou o que ela sentia, sem precisar dizer uma palavra.
Mesmo assim, ela sentiu que devia dizer que estava com vergonha de dizer tudo aquilo... Ele responde com humor, aliviando a tensão e o embaraço dela: "Por quê? Você tirou a rolha da garrafa. Pelo que posso perceber, eu cheguei aqui na hora certa. Tivesse demorado um pouco mais e você teria sido manchete de primeira página, correndo nua pela Main Street. . ." Ela ri... "Mas nós nem nos conhecemos!" Ele: "Você não tem razão de se sentir envergonhada. Você não disse nada que você não tivesse o direito de dizer. E se alguém discorda -- mande falar comigo!".
O mais assustador do filme é que, no caso de Francesca, o marido e os filhos nunca haviam notado que ela era profundamente infeliz... Na verdade, nem ela mesma havia se dado conta de todo o ressentimento que se acumulava dentro de si em virtude de tudo aquilo a que havia renunciado para ter, o que agora ficava claro, aquela vidinha medíocre no interior de Iowa – até que o contato com Roberto Kincaid, viajante de muitas plagas (que conhecia até mesmo a pequenina Bari, cidade em que ela nasceu na Itália), quem sabe amante de muitas mulheres sofisticadas, sem querer, lhe revelou... E ela, que estava traindo o marido, sentiu ciúmes dos amores que o amante deveria ter tido antes de conhecê-la!
Que conflito deve ter sofrido Francesca. Ali, naqueles poucos dias com Kincaid, ela se apaixonou, eles se amaram, e tudo foi lindo -- mas os dois sabiam que havia uma decisão que ela deveria tomar – ela, mais do que ele, porque era ela que tinha mais a perder (a despeito de tudo o que sentia sobre Iowa). A decisão dele era fácil: era solteiro (divorciado), sem compromissos, e queria Francesca, sem dilemas e sem conflitos. Mas a decisão dela era difícil: abandonar uma vida, medíocre é verdade, sem paixão, aparentemente até mesmo sem amor (apesar da afirmação feita aos filhos), mas sabida e conhecida, na qual possuía pelo menos um certo carinho do marido e dos filhos e a certeza do hábito e da rotina, por uma paixão que muito promete mas, no fundo, leva ao desconhecido.
E a tragicidade da coisa é que, mesmo que Francesca tivesse tomado a decisão oposta, teria sofrido muito. Talvez até mais. Tal é a condição humana. Francesca tomou sua decisão -- e viveu com ela. Ela termina, porém, sua "carta testamento" aos filhos dizendo: "Façam o que vocês têm de fazer, e sejam felizes nesta vida. Há tanta beleza nela!" Felicidade, beleza...
Filmes... Literatura... Ficção... Histórias inventadas... Na verdade, não totalmente inventadas, mas aproveitadas da vida vivida, da experiência, própria ou dos outros, e reunidas em personagens e acontecimentos que, como tais, nunca viveram ou aconteceram. O cinema e a literatura nos permitem viver, vicariamente, experiências que muitas vezes não nos é dado viver na vida real. E, assim, enriquecem a nossa vida, refinam e aprofundam a nossa sensibilidade. (Já discutimos aqui a questão da educação da sensibilidade).
Alguns, pouco preocupados com a sensibilidade, dizem que esse tipo de filme e literatura alienam. Até certo ponto é verdade. Eles nos alienam, isto é, afastam, temporariamente, do dia-a-dia, com seus vales e suas planícies, muitas vezes sem graça, e nos levam para os picos da experiência humana, daquilo que nossa vida, de certo modo, poderia, quem sabe, ter sido, se a gente tivesse registrado as oportunidades que apareceram e feito escolhas diferentes...
Discordo dos críticos que afirmam que o cinema e a literatura desengajados poltiicamente, “inorgânicos”, alienam quando eles assumem que essa alienação é ruim. Eu acho que sem ela a vida seria muito mais pobre e muito mais difícil de viver.
Em Salto, 25 de agosto de 2006
Ontem se comemorou mais um aniversário da morte de Getúlio Vargas. Na madrugada de 24 de agosto de 1954, ele se suicidou com um tiro no coração. Lembro-me data ainda hoje. Estava a duas semanas de fazer onze anos. Morava em Santo André, com meus pais, numa casinha geminada na Av. Santos Dumont, 256. A casa tinha um quarto só, onde ficavam a cama de meus pais e o beliche em que eu e meu irmão mais novo dormíamos. Como moradia, era melhor do que a dos cubanos hoje -- mas não tanto... Pastor protestante ganhava pouco naquela época. Meu pai tinha o hábito de ligar o rádio às 7 horas da manhã, na Tupi, para ouvir o "jornal falado" de Corifeu de Azevedo Marques. Quando ouviu que Getúlio estava morto, que havia se suicidado, desandou a chorar. Meu pai tinha 42 anos na época. Nunca o havia visto chorar antes -- nem nunca vi depois, até a sua morte, em 1991. Mais do que o suicídio do presidente, cuja importância não conseguia compreender muito bem, ficou marcada na minha memória a experiência de ver o meu pai, pego com a guarda-baixa, na primeira hora da manhã, chorar.
Transcrevo abaixo a carta em que Getúlio apresentava os motivos de sua atitude. É uma bela peça de retórica política. Foi retirada da Wikipedia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Carta_Testamento_de_Getúlio_Vargas.
"Mais uma vez, as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se novamente e se desencadeiam sobre mim.
Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes. Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se às dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a Justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás; mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre. Não querem que o povo seja independente.
Assumi o Governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia, a ponto de sermos obrigados a ceder.
Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida. Escolho este meio de estar sempre ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no meu pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com o perdão. E aos que pensam que me derrotaram, respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue terá o preço do seu resgate.
Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia, não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História."
Em Salto, 25 de agosto de 2006
Hoje, 25 de agosto de 2006, faz 45 anos que Jânio da Silva Quadros renunciou ao seu mandato de Presidente do Brasil, poucos meses depois de uma acachapante vitória nas urnas. Não vou entrar aqui nos méritos e deméritos do político. Achava o homem bastante interessante.
Tive o privilégio de me encontrar pessoalmente uma vez com ele, no final de 1988, quando ele terminava o seu mandato como Prefeito de São Paulo -- e, doente, concluía, relutantemente, sua participação na vida política. Jânio havia mandado pendurar umas chuteiras de futebol na porta de seu gabinete para indicar sua intenção de se aposentar como político. Fui visitá-lo com o então Secretário de Saúde do Governo Quércia, hoje Deputado Federal pelo PFL, José Aristodemo Pinotti, que, além de meu chefe na Secretaria (eu era Diretor do Centro de Informações e Informática em Saúde), era, e continua sendo, amigo meu. Éramos colegas na UNICAMP desde 1974, quando eu entrei na Universidade. Não que eu seja amigo de todos os meus colegas da UNICAMP... Os economistas de lá, Paulo Renato Costa Souza, José Serra, e alguns outros, prefiro ver só de longe...
Para entender o que aconteceu no final da reunião com o Jânio, preciso retroceder um pouco no tempo.
Depois de ter renunciado, Jânio Quadros continuou no cenário político até que foi cassado pelo regime militar. Recuperou, porém, seu direitos políticos em 1974, mas, por bom tempo, limitou-se a pronunciamentos, permanecendo afastado das eleições. Em 1982, entretanto, candidatou-se ao governo de São Paulo, mas perdeu. Em1985, entretanto, elegeu-se prefeito de São Paulo, derrotando o candidato do prefeito (biônico) Mário Covas (a quem nunca admirei), o suplente de senador Fernando Henrique Cardoso (a quem admirava menos ainda, como se possível), que viria a ser Presidente da República. Um presidente passado derrotando um futuro. Seu mandato como prefeito foi até o fim de 1988.
Durante 1985 eu era Assessor Especial (um equivalente ao Pró-Reitor de hoje) de Pinotti, que, na época, era Reitor da UNICAMP. Na ocasião, foi dado um almoço na Reitoria, com a participação do mais alto escalão da Universidade, em homenagem ao Fernando Henrique. Eu era o único membro da equipe da Reitoria que torcia, abertamente, pelo Jânio. Dias antes do almoço, andando pelo prédio da Reitoria, vi que estavam reformando uma sala que havia sido ocupada pelo ex-Reitor e fundador da UNICAMP, Zeferino Vaz, depois de ter deixado a Reitoria. Havia virado uma espécie de museu do ex-Reitor. Algumas das relíquias preservadas por ele estavam jogadas pelo chão, meio sujas de tinta, entre elas uma foto de Jânio Quadros, tirada quando fora Governador do Estado em 1966. Jovem, até bonitão -- embora já com o olho meio torto... A foto continha a seguinte dedicatória: "Ao Prof. Zeferino Vaz, meu amigo e companheiro, com o respeito que merece a grande obra de Ribeirão Preto, o admirador, J. Quadros. 7.1.59". Ao ver aquela foto ali jogada, correndo o risco de ser destruída, peguei-a, coloquei-a na minha sala, e fui ver o Reitor, comunicando-lhe: "Encontrei uma foto do Jânio dada ao Zeferino em 1959, jogada lá embaixo. Levei-a para minha sala. Se alguém a procurar, está comigo." Nunca ninguém procurou.
Quando o resultado da eleição de 1985 saiu, estava em Nova York, a serviço. Essa foi a eleição em que Fernando Henrique Cardoso se deixou fotografar, antes da eleição, sentado na cadeira de seu amigo Covas, considerando-se eleito antes das eleições. Bom, perdeu. E eu comemorei sozinho em Nova York, indo assistir a uma audição coral numa Igreja Batista do Harlem. Senti-me vingado da hostilidade das forças defensoras da candidatura do Fernando Henrique -- as mesmas que foram o PSDB de hoje.
Quando se preparava para ir ao encontro de Jânio, para pedir que cedesse alguns terrenos da Prefeitura de São Paulo para a construção de Centros de Saúde, Pinotti me ligou e disse: "Estou indo visitar o seu ídolo: quer ir junto?" Não pensei duas vezes. Larguei o que estva fazendo, avisei minha secretária que iria sair por umas duas horas, peguei o paletó e fui.
No final da visita a Jânio, Pinotti disse ao ex-Presidente: "Presidente, o Eduardo Chaves, meu colega na UNICAMP e meu assessor na Secretaria, é um fã incondicional seu. Tanto que mantém em sua sala até hoje [isso era brincadeira, vale dizer, mentira] uma foto sua". A isso eu acrescentei: "Que eu obtive por meios, talvez, não muito lícitos..." -- e contei a história da foto ao Jânio. Ele deu uma tirada das que o fizeram famoso: "Licitamente ou não, Professor, o importante é que a tenha adquirido!". E chamou sua secretária, uma senhora já de idade que o acompanhava há décadas, e lhe mandou que me desse uma foto atualizada dele -- que guardo, carinhosamente, junto da primeira. Achei divertido o comentário e gentil o ato.
Quanto às tiradas de Jânio, lembro-me de duas outras que me são especialmente caras.
Creio que durante à candidatura a Prefeito, ele foi ao programa da Hebe Camargo. E conversando com ela, disse que jornalistas são todos uns cachorros. Ela ficou hebecamargamente horrorizada e, também hebecamargamente, o repreendeu. "Como é que o senhor pode dizer uma coisa dessas, Presidente!". Ele pensou um pouco e disse: "Está certo... Penitencio-me. Cometi uma injustiça tremenda: contra os cachorros..."
Durante uma entrevista na TV Bandeirantes (acho que era "Crítica e Autocrítica"), durante a mesma candidatura, Jânio, que agora concorria contra Fernando Henrique, foi indagado se, na eleição anterior, havia votado para Fernando Henrique para Senador. Ele disse que sim, e explicou: "Votei porque achei que, como Senador, seria bom, homem inteligente que é. Mas como Administrador, ele nunca provou a que veio, não tendo sequer conseguido administrar a própria cátedra na USP". Um pouco de maldade, aí, porque Fernando Henrique foi aposentado prematuramente da USP pelos militares. Mas, aqui entre nós, uma maldadezinha bem aplicada...
Em fim... Agora, em vez das tiradas inteligentes do Jânio, temos de conviver com o besteirol do Lulla. No plano da inteligência, da linguagem e do humor, perdeos muito. Suspeito que politicamente também tenhamos perdido.
Fica aqui minha homenagem a um homem interessante e um político como poucos.
Este o texto da Carta Renúncia de Jânio, segundo a Wikipedia (http://pt.wikipedia.org/wiki/Jânio_Quadros)
"Fui vencido pela reação e assim deixo o governo. Nestes sete meses cumpri o meu dever. Tenho-o cumprido dia e noite, trabalhando infatigavelmente, sem prevenções, nem rancores. Mas baldaram-se os meus esforços para conduzir esta nação pelo caminho de sua verdadeira libertação política e econômica, a única que possibilitaria o progresso efetivo e a justiça social, a que tem direito o seu generoso povo.
Desejei um Brasil para os brasileiros, afrontando, nesse sonho, a corrupção, a mentira e a covardia que subordinam os interesses gerais aos apetites e às ambições de grupos ou de indivíduos, inclusive do exterior. Sinto-me, porém, esmagado. Forças terríveis levantam-se contra mim e me intrigam ou infamam, até com a desculpa de colaboração.
Se permanecesse, não manteria a confiança e a tranqüilidade, ora quebradas, indispensáveis ao exercício da minha autoridade. Creio mesmo que não manteria a própria paz pública.
Encerro, assim, com o pensamento voltado para a nossa gente, para os estudantes, para os operários, para a grande família do Brasil, esta página da minha vida e da vida nacional. A mim não falta a coragem da renúncia.
Saio com um agradecimento e um apelo. O agradecimento é aos companheiros que comigo lutaram e me sustentaram dentro e fora do governo e, de forma especial, às Forças Armadas, cuja conduta exemplar, em todos os instantes, proclamo nesta oportunidade. O apelo é no sentido da ordem, do congraçamento, do respeito e da estima de cada um dos meus patrícios, para todos e de todos para cada um.
Somente assim seremos dignos deste país e do mundo. Somente assim seremos dignos de nossa herança e da nossa predestinação cristã. Retorno agora ao meu trabalho de advogado e professor. Trabalharemos todos. Há muitas formas de servir nossa pátria."
Brasília, 25 de agosto de 1961.
Jânio Quadros"
Em Salto, 25 de agosto de 2006
[Este material é o primeiro capítulo do meu livro Informática: Micro Revelações, publicado em 1985 pela Cartgraf Editora, de Campinas, em co-edíção com a People Computação. O texto do livro foi escrito por mim, mas vários outras pessoas participaram de sua elaboração, acrescentando material visual, ou revisando o texto. O principal dentre esses co-autores foi meu grande amigo Claudio Minetto. Resolvi transcrever o material aqui por duas razões. Primeiro, porque a matéria anterior lida com a história do computador --no caso, dos computadores pessoais. O texto a seguir amplia um pouco o foco, discutindo a história dos computadores de grande porte. Segundo, porque, por incrível coincidência, minha grande amiga Márcia Teixeira, da Microsoft, me contatou ontem pelo Windows Live Messenger para dizer que havia encontrado -- lá perto de Miami onde mora atualmente -- um livro que eu havia escrito, e o livro era exatamente este do qual agora tiro o material abaixo. Não revisei o material: ele se encontra como foi escrito e publicado em 1985.]
Nosso objetivo, neste primeiro capítulo, será levá-lo a:
entender a extensão em que a nossa sociedade já está informatizada;
compreender como a informatização da sociedade afeta os indivíduos e os grupos sociais;
refletir sobre as mudanças sociais que ainda estão por vir em função da crescente informatização da sociedade;
adquirir uma rápida visão histórica do desenvolvimento do computador.
1- Sociedade Informatizada
Vamos procurar fazer um simples exercício de imaginação. Quem se arriscaria a dizer, cinco anos atrás, que hoje, aqui no Brasil, nossos maiores bancos - para citar apenas um exemplo - já estariam tão avançados em direção à automação dos serviços de atendimento ao cliente? (Falamos em serviços de atendimento ao cliente porque os outros serviços já estão, em grande parte, automatizados, há um bom tempo). Teria sido possível imaginar, cinco anos atrás, que hoje você poderia verificar seu saldo bancário, à noite, por telefone, em contato direto com um computador, sem a interveniência de uma outra pessoa? Teria sido possível imaginar que seus depósitos e saques seriam registrados na hora em sua conta corrente, e que você poderia, logo em seguida, obter cópias atualizadas de seu extrato, sem precisar esperar mais do que alguns segundos? Teria sido possível imaginar que você iria ser capaz de fazer compras nas grandes lojas de departamentos e usar, como forma de pagamento, um cartão magnetizado, que faria debitar diretamente em sua conta corrente o valor da compra?
Se um de nós tivesse ouvido alguém fazendo essas previsões, cinco anos atrás, provavelmente teria imaginado tratar-se de um visionário, como tantos por aí. Ou possivelmente concordaria que isso pudesse acontecer em país mais desenvolvidos, como os Estados Unidos e o Japão, mas não no Brasil. Teria sido, naquela ocasião, muito difícil acreditar que previsões como essas pudessem se confirmar tão cedo, aqui.
No entanto, tudo isso já acontece, aqui mesmo no Brasil - e estamos apenas no começo! Mas apesar de estarmos apenas no começo, que grande distância já percorremos em tão pouco tempo! Tentemos lembrar como era o sistema bancário há não mais de vinte anos. Quando alguém ia a um banco, naquela época, para descontar um cheque, tinha que entregar o cheque no balção de atendimento, recebia um canhotozinho ou uma chapinha numerada, e precisava esperar até o caixa chamar o seu número. Mesmo que não houvesse quase ninguém à sua frente, a demora nunca era inferior a dez minutos, porque antes de o cheque ir ao caixa, ele era colocado na mesa do responsável pelas contas correntes, que conferia a assinatura, pegava o cartão de lançamento do cliente, verificava o seu saldo, lançava o valor do cheque, calculava (muitas vezes a mão) o novo saldo, e separava o cartão de lançamentos, colocando-o em uma pilha de cartões movimentados naquele dia. Este funcionário a seguir rubricava o cheque, levava-o à mesa do contador, que também o rubricava, e, só então, o encaminhava ao caixa. O Caixa dava mais uma conferida em tudo e chamava o cliente pelo seu número. É até de se admirar que tudo isso fosse às vezes feito em dez minutos. Muitas agências bancárias tinham até cadeiras para o cliente se sentar enquanto aguardava a tramitação de seu cheque! É o que dizer do fechamento do expediente? Para falar somente no problema de contas correntes (deixando cobranças, descontos, etc.; de lado), ao final do dia, o funcionário responsável por elas somava todos os saldos anteriores, todos os depósitos feitos no dia, todos os cheques sacados no dia , todos os saldos atualizados, e verificava se tudo estava "batendo" - isto é, conferindo, Caso tudo estivesse certo, iria conferir os totais de depósitos e de cheques com os totais do caixa. Se alguma coisa desse errado, era preciso procurar a diferença. Às vezes os funcionários tinham que ficar no banco até altas horas, procurando diferenças, porque tudo tinha que estar "batido" antes do início do expediente no dia seguinte!
O sistema bancário funcionava assim há até relativamente bem pouco tempo. De lá para cá, cresceu exponencialmente o número de usuários do sistema, e multiplicaram-se consideravelmente os serviços que os bancos oferecem aos seus clientes. Se você percebe a distância enorme que separa os procedimentos de uma agência bancária de vinte ou quinze anos atrás dos atualmente adotados, certamente entenderá pelo menos parte do que se quer dizer por informatização da sociedade. Isto porque, com pequenas variações, processo semelhante está acontecendo em outras áreas da sociedade.
Ou vejamos. Para que você tenha uma idéia de quanto a nossa vida está permeada pelo computador, procure fazer uma lista de todos os contatos diretos ou indiretos que você tem com o computador. Por contato indireto queremos dizer, principalmente, contato com produtos do computador. Vamos tentar iniciar a lista?
se você trabalha, seu contra-cheque ou "hollerith" é, provavelmente, emitido por computador;
se você é estudante, sua matrícula, seu carnê de pagamentos (caso você esteja em escola paga), seu relatório de notas, seu histórico escolar, etc.; são todos efetuados com o auxílio do computador;
seu extrato bancário, naturalmente, é emitido por computador;
se você tem cartões de crédito, seus extratos também são emitidos por computador,
se você compra a crédito, por meios mais convencionais, seus carnês provavelmente são feitos por computador;
sua notificação de imposto de renda, sua TRU, e outros impostos, são quase todos confeccionados por computador;
suas contas de luz, de água, de telefone, etc.; também são preparadas e emitidas por computador;
seu joguinho também na Loteria Esportiva ou na Loto não sairia se não fosse o computador (no Bicho, por exemplo, ainda sai sem computador, mas não vai durar muito...);
se você vai a um estádio de futebol, é provável que lá haja um placar eletrônico, controlado por computador;
o jornal e revista que você compra na banca provavelmente foram redigidos e impressos, pelo menos em parte, usando-se o computador;
os programas de televisão a que você assiste, em sua maior parte, não poderiam ter sido feitos ou transmitidos sem o auxílio do computador;
muitos dos comerciais que você vê na televisão são feitos utilizando-se o computador para efeitos visuais e sonoros;
os efeitos especiais de muitos dos filmes hoje famosos não poderiam ter sido alcançados sem o computador;
grande parte da correspondência que você recebe foi endereçada via computador e chegou à sua casa mediante processos controlados por computador;
o telefone que você usa não funcionaria tão eficientemente sem o controle do computador: suas chamadas locais, interurbanas, internacionais, são todas completadas e contabilizadas por computadores;
se você vai ao médico, grande parte dos equipamentos usados por vários exames a que você se submete são computadorizados;
a distribuição de água e de energia elétrica em sua cidade provavelmente é controlada por computador;
se você vai viajar, suas reservas, tanto nas companhias aéreas como em hotéis, são feitas por computador;
em um avião, como também, já nos automóveis mais recentes, o computador é responsável pelo controle e bom funcionamento de um número cada vez maior de processo;
em aparelhos domésticos, como televisores, geladeiras, fornos de micro-ondas, etc.; microprocessadores já controlam o funcionamento de uma série de processos;
seu relógio ou despertador digital tem um minúsculo microprocessador dentro dele, como também é o caso, naturalmente, de sua máquina de calcular eletrônica;
vários produtos manufaturados que você adquire foram feitos com o auxílio do computador;
e assim por diante: você pode completar o restante da lista
Não seria exagero dizer que, se, hoje, computadores deixassem de existir ou parasse de funcionar, nosso mundo e nossa sociedade entrariam em colapso, tantas são as áreas e as atividades que hoje dependem deles. Este texto, por exemplo, como muitos outros, hoje em dia, não foi redigido por uma máquina de escrever e sim por um microcomputador e uma impressora.
E, como dissemos, estamos apenas no começo. A indústria eletrônica, que é o fundamento da indústria de computadores, está ainda em sua infância quando comparada à indústria mais convencional é tradicional. É por isso que se fala, hoje em dia, em uma nova revolução industrial. Ou então, se termo "industrial" é reservado para a indústria tradicional afirma-se que estamos vivendo, em grande parte, numa sociedade pós-industrial, em função de uma revolução que está correndo, e que está nos levando da sociedade industrial clássica para a sociedade pós-industrial.
De qualquer maneira, ninguém parece negar que tenha havido ou esteja ocorrendo alguma forma de revolução - o termo usado é realmente este. Argumenta-se que a atual revolução será muito mais ampla, e muito mais rápida no que diz respeito à sua consolidação, do que a (primeira) revolução industrial.
Para que você se aperceba da dimensão e da rapidez da atual revolução, aqui vão alguns dados, que já se tornaram até bem conhecidos na literatura sobre o assunto, tantas vezes têm sido mencionados:
Se os automóveis tivessem desenvolvido no mesmo ritmo em que os computadores evoluíram, no que diz respeito a preço, eficiência, e miniaturização, hoje seríamos capazes de comprar um Rolls-Royce por dois dólares e setenta e seis centavos, ele poderia rodar mais de um milhão e trezentos mil quilômetros com um litro de gasolina, sendo possível estacionar meia dúzia deles na cabeça de um alfinete!
No início da década de 50, um computador que tivesse o mesmo número de elemento funcionais que o cérebro humano teria que ter o tamanho da cidade de New York e gastaria mais energia do que todo o sistema de metrô daquela cidade. Hoje esse computador existe e é do tamanho de um aparelho de televisão!
Mesmo em países em recessão econômica, a indústria de computadores e seus periféricos, e em especial a de microcomputadores, tem crescido, em termos reais numa média de 35% ao ano.
Nos Estados Unidos, só um fabricante de microcomputadores já doou mais de dez mil microcomputadores, em apenas um estado, a escolas de rede estadual de ensino. Outros fabricantes têm planos especiais para as escolas, dando três microcomputadores pelo preço de dois, etc. Em outros países industrializados algo semelhante está acontecendo, embora em escola menos. Aqui mesmo no Brasil já há várias escolas particulares de primeiro e segundo graus usando microcomputadores em escolas de rede oficial.
Os vídeo-jogos, que são microcomputadores dedicados a funções específicas, estão cada vez mais populares, e cada vez mais baratos.
Os próprios microcomputadores de uso geral estão cada vez mais baratos e acessíveis, sendo vendidos a prazo em lojas de departamentos e em outros locais, dedicados, tradicionalmente, à venda de eletrodomésticos.
E assim por diante. Parece que o mundo da ficção científica está saindo do futuro, onde sempre confortavelmente existiu, para invadir o nosso presente. Hoje em dia há arte computadorizada, música computadorizada. A abertura da maioria dos grandes programas de televisão, os próprios programas, até os comerciais, tornaram-se cenário eletrônicos onde artistas desconhecidos exibem uma arte desenvolvida com o auxílio do computador. Sintetizadores de voz permitem que os computadores falem e ajudem até os mudos a se expressarem de forma audível. Satélites tiram fotografias a milhões de quilômetros de distância e as transmitem na forma de impulsos elétricos, que, decodificados por computadores, transformam-se em imagens maravilhosas. Radares colocados em satélite tiram, da mesma forma, fotografias que nos permitem elaborar mapas cada vez mais precisos e prever com razoável exatidão as condições meteorológicas. Arquitetos e projetistas usam os recursos gráficos dos computadores para projetar prédios, peças, equipamentos e aparelhos. Sofisticados equipamentos médicos computadorizados fazem uma "varredura" ("scan") do interior das pessoas, possibilitando que várias doenças, que doutra forma passariam desapercebidas, possam ser diagnosticadas. Nas indústrias, o processo de automação vai sendo implantado, desde o setor produtivo até os setores administrativos, gerências e executivos. Estoques de supermercados, farmácias, e outros negócios, estão sendo controlados por computadores. É possível, com um apertar de botões. descobrir que produtos, ou que marcas, não estão vendendo bem e colocá-los em ofertas especiais. O governo não poderia subsistir um dia sem seus computadores. A política e a investigação criminal também dependem maciçamente dos computadores. A justiça e os cartórios estão ameaçados a se informatizar. Os semáforos das grandes cidades são controlados por computadores e se ajustam conforme o fluxo do trânsito.
Sistemas de vídeo-texto, já implantados no Brasil, como, por exemplo, em São Paulo, pela TELESP, unem dois equipamentos já controlados em muitas residências, o telefone e a televisão. Acrescentando a eles um teclado simples e barato, o vídeo-texto já viabiliza o jornal eletrônico, a lista telefônica eletrônica, o dinheiro e as transações comerciais eletrônicos, a democracia instantânea, e uma série de outras coisas. O projeto CIRANDÃO da EMBRATEL se propõe interligar milhares de residências através de microcomputadores neles instalados. Originalmente reservados a funcionários da companhia, esse projeto expandiu-se para usuários externos.
Onde vamos parar? A resposta mais realista é a de que não vamos parar. Diante desse quadro, porém, muitas pessoas ficam temerosas de que estejamos entrando, realmente, numa sociedade do tipo prevista no livro "1984", de George Orwell. A nível individual, muitos se sentem intimidados por computadores. Sentem receio de que sua privacidade venha ser invadida por eles, de que informações importantes sobre suas vidas estejam sendo armazenadas, sem seu conhecimento e sua autorização, em algum computador do governo, e possam, em algum momento, vir a ser utilizadas contra ele próprios. A nível social, teme-se que a automação de processos industriais, de escritórios, etc. possa vir a eliminar empregos, aumentando, ainda mais, alguns males sociais hoje existente.
É da natureza humana ter preocupações como essas, e algumas delas são plenamente justificativas, como, por exemplo, as relativas à invasão da privacidade, ao termo de que informações importantes passam vir a ser utilizadas para finalidades de que aquelas para as quais foram fornecidas. O problema do aumento de desemprego também é sério e deve ser encarado de frente.
Apesar dessas preocupações e desses perigos, nós todos sabemos que o relógio não vai ser voltado para trás: a sociedade em que vivemos não vai mais se "desinformatizar" - e isso por uma série de razões, nenhuma das quais, talvez essencial em si mesma, mas que, em seu conjunto, se tornam significativas. Mencionemos, brevemente, algumas dessas razões, porque elas apontam para o lado positivo da maciça introdução de computadores em nossas vidas.
Em primeiro lugar, os computadores fornecem serviços rápidos - e já nos acostumamos a ser