Junho de 2006


Os artigos estão em ordem cronológica, com os mais recentes em cima.
[4 artigos publicados neste mês]


Bondes e trens em Campinas (e Genebra)

Se a gente conseguisse determinar quem são os responsáveis pela desativação / destruição do sistema de tranporte sobre trilhos no Brasil (bondes, trams, trens de passageiros, etc.), cem anos no inferno seria pouco.

Não cresci em Campinas -- mas sempre passei minhas férias, quando criança, em Campinas, pois aqui moravam meus avós maternos (e minha tia -- que, velhinha, está ainda viva). Havia um sistema que, inicialmente, tinha doze linhas de bonde, que passo a descrever, para preservação da memória:

Linha 01 - Vila Industrial (saindo pela Rua General Osório [onde hoje fica a Igreja Presbiteriana Central] e Av. Andrade Neves)

Linha 02 - Vila Industrial (saindo na direção oposta, pela Rua Barão de Jaguara e Av. Moraes Salles)

[As duas linhas se cruzava na Av Salles de Oliveira, na Vila Industrial]

Linha 03 - Guanabara

Linha 04 - Taquaral

Linha 05 - Estação (Ferroviária)

Linha 06 - Cambuí (saindo pela Rua General Osório)

Linha 07 - Cambuí (saindo pela Rua Dr. Quirino e Av. Orozimbo Maia)

[As duas linhas cruzavam na Av. Julio de Mesquita]

Linha 08 - Bonfim

Linha 09 - Botafogo

Linha 10 - Castelo Linha

11 - Cemitério da Saudade Linha

12 - Bosque

Posteriormente acrescentou-se a

Linha 13 - Alecrins (que ia pra a Chácara da Barra, o Jardim Flamboyant, o Fura-Zóio).

Além dessas doze linhas havia uma linha especial, às vezes chamada de Linha 14, o chamado "bondão verde" (os outros eram amarelos e vermelhos), que ia para Souzas e Joaquim Egídio, até o Morro das Cabras, onde fico o Observatório de Capricórnio. É bom que se diga que Souzas e Joaquim Egídio, quando eu era criança, eram lugares perto do fim do mundo. Hoje eu saio de casa para ir cortar cabelo com o Zezito em Souzas. E Joaquim Egídio virou um lugar badalado, cheio de restaurantes interessantes.

O passeio no Bosque dos Jequitibás era o melhor passeio que uma criança podia fazer naquela época. O Bosque parecia longe. Hoje está dentro do centrão da cidade, como estão o estádio de futebol da Ponte Preta (o Estádio Moysés Lucarelli, que os "guaranienses", aqui chamados de "bugrinos", porque o símbolo do Guarani é um indiozinho, insistem em chamar carinhosamente de "pastinho"), que a gente via ao passar no trem da Paulista, chegando de São Paulo a Campinas, se estivesse nos bancos à direita, e o estádio de futebol do Guarani (o famoso "Brinco de Ouro da Princesa" -- assim chamado porque Campinas tem o apelido carinhoso de "A Princesa do Oeste": o campo do Guarani é o brinco de ouro da Princesa...).

Por falar em trens, a viagem de trem entre São Paulo e Campinas era uma delícia. Os trens da Paulista, sempre limpos e bonitos, com suas locomotivas azuis (isto de Jundiaí para o Interior -- de Jundiaí para São Paulo as locomotivas eram vermelhas, porque os trilhos pertenciam à Estrada de Ferro Santos Jundiaí). Por algum tempo, houve a litorina, um trem rápido de três vagões que ia de Campinas até Santo André, onde moravam meus pais.

Para ir de Campinas para o Interior, havia várias opções. A Paulista, que ia na direção de Bauru e chegava até Dracena. A Araraquarense, a Noroeste, a Sorocabana, a Mogiana...Tudo isso sumiu no afã estatizante que matou a iniciativa privada do setor. O Estado estatizou para acabar. Uma vergonha.

Bons tempos aqueles em Campinas. A Lagoa do Taquaral ainda não era cercada, e muito menos o centro de lazer que é hoje -- por obra e mérito de Orestes Quércia, quando foi Prefeito da cidade, que até colocou na lagoa uma réplica de uma das caravelas do descobrimento (não sei qual delas), hoje em lastimável estado de desconservação, obra de algumas administrações petistas. Antes da obra de revitalização do local realizada pelo Quércia a região não era bem vista, até porque as chamadas moças de vida fácil haviam escolhido o Taquaral como sua zona -- zona essa que algum bom prefeito, talvez o Quércia também, mudou para um local bem afastado da cidade, no Jardim Itatinga, já quase chegando em Viracopos. Apesar disso, quando voltei a Campinas, em 1961, para estudar no Seminário Presbiteriano, no Alto da Guanabara, na Av. Brasil, eu não tinha medo nenhum de andar por aquelas bandas (Taquaral, a lagoa ou o bairro), sozinho ou com um namorada que era preciso entregar em casa, lá pela meia-noite. Ia e voltava a pé, porque os bondes paravam de circular por volta das 23 horas...

A gente (eu e meus colegas seminaristas) estudava para ser pastor. A ideologia que dominava o seminário naquela época era esquerdista -- até 1966, quando houve o expurgo que até a mim levou de roldão. Por isso, nunca arrumava namorada rica, que morasse ali por perto do Seminário, naqueles casarões que, na época, pareciam maravilhosos -- hoje, olhando para eles, vejo que não passavam de casas de classe média, em terrenos com frente de não mais de 10 m, com fundos de no máximo 30 m. A gente buscava umas namoradinhas mais simples e pobres, cujos usos e costumes fossem mais próximos da classe da qual a gente originava (em geral, D e E). Seminário protestante dificilmente era lugar de estudo de gente que tinha dinheiro -- esses iam pra USP, ou para a França.

Quando fui para a Europa pela primeira vez, nos idos de 1987, fiquei surpreso de ver trens rodando para toda parte e bondes circulando por todos os bairros da cidade. A primeira cidade em que fiquei tempo razoável na Europa foi Genebra, na Suiça -- lá chamada Suisse, com dois s's -- terra de Calvino, de Rousseau e para onde fugiu Voltaire). Eu comprava a Carte Orange e andava de ônibus, bonde (tram) ou trem subúrbio livremente durante um mês. A Carte Orange custava 27 francos suícos. Hoje, que sou "Senior Citizen", provavelmente pagaria menos, mesmo que o preço tenha subido. De lá era possível sair para qualquer lugar na Europa.

Saudade de meu amigo Aharon Sapsezian, de Genebra, que, há dias, sofreu um infarto e uma parada cardíaca. Não consigo falar com a Zabel, a mulher dele -- e, na verdade, tenho até medo de falar.

Wilson Azevedo me enviou o URL de um belo artigo sobre os bondes de Campinas e outro URL com o mapa das linhas de bonde: http://www.tramz.com/br/cp/cp.html e http://www.tramz.com/br/cp/cpm.jpg]

Em Salto, 24 de Junho de 2006 

A Copa

A Copa do Mundo começou hoje (09/06/2006). A Globo, pelo que consta, enviou 185 profissionais para cobri-la. Todos os canais de tv, as emissoras de rádio, os jornais, as revistas -- toda mídia dá destaque ao evento. 

Fico me perguntando: por que é que o esporte consegue mobilizar tanta gente desse jeito?

Intelectuais metidos a besta, professores universitários com complexo de superioridade, todo mundo se une para torcer por um grupinho de indivíduos que ganham o que certamente parece ser uma obscenidade. Por que os admiramos? Por que os aplaudimos? Por que torcemos por eles? Por que não nos revoltamos diante do fato de que eles ganham tanto e nós, comparativamente, tão pouco?

A esquerda costuma defender a tese de que a violência que aflige a nossa sociedade tem como principal causa a desigualdade sócio-econômica. Segundo essa tese, os pobres observariam os ricos, e, nessa "prise de conscience", perceberiam a ineqüidade de nossa sociedade -- e se revoltariam. A violência seria a expressão dessa revolta.

Nada confirma essa tese. Pelo contrário. Estão aí o Ronaldinho Gaúcho, o Ronaldo Fenômeno, o Cacá... Todos multimilionários, todos adoradíssimos -- especialmente pelos mais pobres. E não é só no esporte. Os artistas (cantores, atores, etc.) também têm rendas milionárias. E também são adorados -- especialmente pelos mais pobres. Onde está a "prise de conscience"? Onde está a percepção da ineqüidade? Onde está a revolta?

Parece-me que os pobres são muito menos igualitaristas que os seus supostos defensores, os intelectuais de esquerda. Os pobres convivem bem com a desigualdade. Eles reconhecem que os dois Ronaldos, o Cacá, etc. merecem o que ganham -- merecem ganhar muito masi do que eles. Estendendo o argumento, reconhecem que um médico, um engenheiro, um advogado, um professor universitário merecem ganhar mais do que eles.

Quem é que vai contestá-los?

Em Salto, 9 de junho de 2006


 

Sorte

Acabei de assistir (hoje, 4 de junho de 2006) a um instigante filme de Woody Allen: "Match Point". Minha razão principal pra comprar o DVD foi o fato de Scarlett Johanssen estar nele... Mas o filme é muito bom. Woody Allen, além de diretor, é roteirista.

O filme começa com a música "Una furtiva lacrima" no fundo, enquanto passam os créditos de abertura... (Eu tinha uma idéia obsessiva de fazer um filme em que Nana Mouskouri cantava essa música quando dos créditos de abertura). Depois aparece uma rede de tênis e uma bolinha passando de lá pra cá, de cá pra lá.

Um voz em off diz:

"O homem que declarou 'Preferiria ter sorte a ser bom' entendia muito da vida. As pessoas têm medo de enfrentar a verdade de que uma grande parte de nossa vida depende exclusivamente da sorte. Assusta acreditar que muito na vida está fora de nosso controle. No, entanto, há momentos em uma partida de tênis em que a bola bate no topo da rede e, por uma fração de segundo, pode ir para frente ou cair para trás. Com um pouco de sorte ela vai pra frente, e você ganha. Mas pode ser que ela não faça isso, e você perde".

O filme ilustra o princípio -- mas a gente só percebe no fim.

Vale a pena assistir. Filme inteligente, como, em geral, são os filmes de Woody Allen. Mistura de romance, policial e suspense. Mas a provocação principal é a questão com que ele começa: quanto da nossa vida depende da sorte?

Tenho defendido há muito tempo que nossa vida depende principalmente de nós mesmos. Mas é inegável que há fatores além de nosso controle. Desses, vários estão sob controle de outras pessoas, mas uma boa parte só pode ser qualificada de sorte - ou azar. É difícil vencer na vida sem uma pitada de sorte aqui e ali. Falo com conhecimento de causa. Tenho sido bafejado por ela em muitas ocasiões. Mesmo quando parecia que o azar havia me acometido, o que veio foi a sorte disfarçada de azar. Espero que meus aparentes azares do presente continuem a se transformar em sorte.

Em Campinas, 4 de junho de 2006


 

Reflexões não tão fúnebres: relações pessoais e a Internet

Ontei à tarde coordenei uma mesa redonda no Congresso do EducaRede, patrocinado pela Fundação Telefónica. Como sou membro do Conselho Consultivo do EducaRede (com Bernardete Gatti e Mônica Alonso), minha tarefa era garantir que os participantes na mesa dessem o melhor de si e que os participantes na audiência fizessem perguntas interessantes. Acho que saiu tudo perfeito.

Gostei da apresentação da Profa. María Irma Marabotto, de Buenos Aires. Mas gostei mesmo foi da apresentação do Prof. Roberto Lerner, da Pontifícia Universidade Católica do Peru, em Lima.

O Prof. Lerner falou sobre relações interpessoais no espaço virtual -- concentrando-se no amor e no sexo. Foi uma palestra deliciosa e muito instrutiva. Depois de 25 anos envolvido com computadores e a Internet -- meu primeiro e-mail foi em 1987, quase 20 anos atrás -- achei que dificilmente iria ouvir algo em uma palestra que pudesse ser novidade para mim. Pois bem: estava errado. A palestra do Prof. Lerner foi "mui novidadosa".

 No que segue, vou resumir algumas idéias dele -- e algumas idéias minhas que as idéias dele provocaram... Como diz o meu amigo Rubem Alves, o que vem a seguir é Roberto Lerner digerido por Eduardo Chaves: é o Roberto Lerner que ficou no meu sistema vital...

Lerner começou, provocadoramente, citando dois livros: O Amor Interligado por Fios (Wired Love -- meu amigo Wilson Azevedo criativamente traduziu esse título por "Amor Fiado"...) e Os Perigos do Amor Interligado por Fios (The Dangers of Wired Love). Para surpresa de todos, esses livros foram escritos no século XIX, quando construíram-se paixões "online", usando o telégrafo como tecnologia e o código Morse como linguagem... Surpreendente. (Ainda o Wilson Azevedo me recomendou o seguinte livro, que trata das implicações sociais da invenção do telégrafo: The Victorian Internet, de Tom Standage [New York: Walker Publishing Company, 1998]).

Falou também do amor epistolar, esse bem mais conhecido...  Cartas (incluindo as mensagens de e-mail) são a única maneira de combinar solidões... Lindo, não? Recorremos a cartas (e e-mails) quando nos sentimos sós... E as cartas, combinando solidões, nos faz sentir menos sós.

Há muitos tipos de solidão. Às vezes não estamos fisicamente sós -- há gente conosco, ou ao nosso redor. Às vezes não estamos nem mesmo sexualmente sós -- temos um(a) parceiro(a) sexual. Mas com tudo isso podemos nos sentir emocionalmente sós... Ou intelectualmente sós... Ou metafisicamente abandonados...

Antes da Internet éramos relativamente limitados no número de relacionamentos realmente significativos que podíamos ter fora dos relacionamentos estáveis dos quais o casamento é o exemplo mais difundido. Isso era ruim, porque é virtualmente impossível que um só ser humano supra todas as nossas necessidades físicas, sexuais, emocionais, intelectuais, espirituais -- e que nós possamos suprir todas essas necessidades emocionais para um outro ser humano. Nos relacionamentos tradicionais, as pessoas, se não queriam viver vidas relativamente incompletas e, por isso, razoavelmente insatisfeitas, acabavam arrumando outros relacionamentos significativos fora do casamento que, por causa da necessidade de contato físico para a viabilização do relacionamento, freqüentmente envolviam sexo -- e assim, descambavam para a traição. É notório que muita gente famosa teve mais de um desses relacionamentos significativos à margem de seu relacionamento oficial, chancelado pela burocracia governamental ou pelos preconceitos sociais.

Com a Internet tornou-se, em tese, possível ter vários -- na verdade, inúmeros -- relacionamentos significativos no plano virtual sem que a questão sexual seja necessariamente colocada -- embora esses relacionamentos claramente envolvam, de forma muito significativa, as emoções, a sensibilidade, e, quiçá, verdadeiramente o amor (que, a meu ver, é uma mistura de emoção, intelecto, e, para ser completo, sexo) -- para não mencionar o intelecto, a espiritualidade. De vez em quando, um desses relacionamentos "platônicos" pode evoluir (ou talvez involuir) e vir a envolver o sexo. Neste caso, o relacionamento claramente se torna traição, pelos padrões vigentes. Mas nos outros casos, em que temos afeição, carinho, admiração intelectual, respeito mútuo, sem que haja sexo, temos uma área cinzenta com a qual ainda não sabemos lidar direito...

Nossos parceiros de relacionamento estável (nossos "cônjuges") certamente se sentirão traídos se souberem que outras pessoas representam um relacionamento significativo para nós do ponto de vista afetivo, ainda que não haja sexo envolvido. Isso talvez se dê porque a gente se imagina (erroneamente) capaz de suprir todas as necessidades do parceiro. Por conseguinte, espera e exige do parceiro fidelidade não só no agir mas também no sentir e no pensar. Eventualmente pode ser que esse sentimento de traição seja substituído por algo mais racional. Não sei. Pode ser que o sentimento de posse e propriedade, o ciúme, a inveja do outro que pode oferecer ao parceiro algo que eu não posso -- pode ser ue todos esses esses sentimentos nos impeçam de ver as coisas mais racional e objetivamente. 

Eu, pessoalmente, acho perfeitamente possível amar (num sentido real do termo) mais de uma pessoa ao mesmo tempo -- embora provavelmente de formas diferentes. A literatura e o cinema estão recheados de exemplos disso, como eu mesmo já mencionei em mensagens anteriores. Como disse, não tenho dúvida de que, no atual esquema de valores, os cônjuges que descubram que seus parceiros estão envolvidos emocional e intelectualmente com outras pessoas, vão se sentir profundamente traídos -- mesmo que não tenha havido sexo, ou mesmo que os envolvidos nem se conheçam face-a-face. (Acho belíssima a contribuição do filme "Cousins" [Creio que o título em Português é "Um Toque de Infidelidade", mas não estou certo], com Isabella Rossellini e Ted Danson. Ali fica claro que, para alguns casais, o envolvimento afetivo do parceiro com outro, ainda que sem sexo, é mais ameaçador do que o sexo sem envolvimento afetivo -- o sexo que não significa nada, como alegam os culpados...)

Roberto Lerner comparou a Internet com a televisão e explicou porque há "viúvos" e "viúvas" da Internet e não havia "viúvos" e "viúvas" da televisão... Ou porque ninguém nunca acusou o parceiro de traição por ver tv demais -- e tenha havido inúmeros casos de divórcio em que a Internet é o pivot do problema. É verdade que, quando se acusa um parceiro de traição virtual, não é porque o parceiro anda navegando por sites pornográficos, que são sites anônimos, impessoais mesmo... A acusação aparece quando, do outro lado da "linha", há uma outra pessoa... É a comunicação (o relacionamento) com uma outra pessoa real, de carne e osso, através da Internet, que consubstancia a acusação de traição -- não a virtualidade em si... Na realidade, pouco ou nada há de virtual no sentimento, em si, que é muito real -- apesar de ter surgido não na ou pela presença física do outro, mas, sim, em sua presença virtual.

A televisão é uma diversão eminentemente pública: muitas pessoas podem assistir a uma mesma tv ao mesmo tempo. Antigamente, quando poucas pessoas tinham televisão, todos vinham assistir à televisão na sala do vizinho que a tinha... Depois, quando todas as casas tinham tv, mas um aparelho só, toda a família ficava na sala reunida vendo tv... Hoje, com o nível de afluência que muitos já alcançam, a tv vai ser tornando pessoal: cada um tem a sua, no seu quarto...

Além disso, a tv pode facilmente tornar-se "ruído de fundo" que nos permite, por exemplo, fazer outra coisa (por exemplo, namorar...) enquanto a tv continua ligada. Muitos até mesmo usam a tv como sonífero (porque a tv dificilmente pode ser vista como afrodisíaco...). Quando nossa cabeça está cheia de coisas que nos preocupam, o ruído da tv nos impede de ficar pensando nos problemas e acabamos dormindo, vencendo a insônia que se prenunciava...

A Internet, porém, é exclusivista e excludente: só nós podemos usar um determinado equipamento -- e, quando estamos ocupados com esse equipamento, excluímos outros tipos de relacionamento pessoal... A Internet, mesmo quando ela envolve duas pessoas se comunicando, por e-mails seriados ou por Messenger, é um meio solitário -- embora ela, por conter a possibilidade de um relacionamento pessoal epistolar, permita combinar solidões... O MSN Messenger inventou o "nudge": uma "sacudida" virtual que reclama nossa completa e exclusiva atenção... (Nunca deixe seu cônjuge ficar sabendo que você, ao conversar com ele(a), está também conversando, em regime de multitarefa, com uma outra pessoa... Isso ofende ao extremo.)

Enfim. A apresentação do Roberto Lerner foi estimulante. Ele recomendou dois livros: Patricia Wallace, The Psichology of the Internet (livro velho!!! de 1999... Cambridge: Cambridge University Press) e Aaron ben Ze'ev (Filósofo e Reitor da Universidade de Haifa, em Israel), Love Online: Emotions on the Internet (Cambridge: Cambridge University Press, 2004). Já encomendei os dois na Amazon.

Roberto Lerner tem excelente senso de humor. Citou Mae West, a quem se atribui o dito de que sexo é como bridge: só se sai bem quem tem um bom parceiro ou uma excelente mão... No sexo virtual pela Internet, o parceiro pode estar lá -- mas a mão terá de estar aqui mesmo...

Em Salto, 1 de junho de 2006

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02/09/2006 08:08