Maio de 2006


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[13 artigos publicados neste mês]


Reflexões meio fúnebres

Ayrton Senna morreu fazendo aquilo de que gostava: correr de Formula 1. Ainda esta semana (semana de 15 de maio de 2006) um ex-estudante da UNICAMP morreu escalando o Himalaia. Também morreu fazendo aquilo de que gostava.

Tenho um pressentimento de que vou morrer em um acidente de avião, enquanto vejo um filme bonito, ou ouço músicas de que gosto, ou escrevo alguma crônica (como estou fazendo no momento) -- enquanto bebo um bom vinho e como comida de primeira...

Estou escrevendo isso a bordo do vôo United 842, de São Paulo a Chicago. Estou sentado na poltrona 5A da Classe Executiva. O ocupante da poltrona 5B me beneficiou com sua ausência (é incrível a sorte que tenho de não ter companheiro de assento em vôos de longa duração). Ouço música de primeira no meu iPod Nano (4 GB de memória me permitem ouvir nada menos do que mil músicas diferentes, em formato MP3, todas elas de minha escolha). Há pouco, quando levantamos vôo de Guarulhos, pude ver como é linda a cidade de São Paulo, à noite e vista do alto... Assim que o sinal de apertar cintos foi desligado, peguei o meu Dell Latitude X1 e comecei a escrever um artigo sobre a esquerda, a pobreza e a desigualdade. Serviram vinho, castanhas de caju. Agora trazem presunto Parma, camarões, e outros quitutes. Mais tarde virá o filé mignon.

Estou no que alguns poderiam chamar de "estado de graça". Não há possibilidade de que o Boeing 767 acerte uma montanha -- estamos a cerca de 35 mil pés de altura, ou seja, a quase 12 km de altitude: não há montanha tão alta. Mas é possível (embora improvável) bater contra um outro avião. E é possível (um pouco menos improvável) que o avião tenha algum problema mecânico, hidráulico, eletrônico que o faça cair. Também é possível que algum terrorista esteja a bordo e este vôo termine como os fatídicos vôos do dia 11/9... Mas esses perigos não diminuem o meu "estado de graça". São possibilidades ou probabilidades meio remotas. Mas se acontecerem, o único temor que tenho é de que sofra, de que sinta dor, de que esteja consciente até o último momento... Se morrer subitamente, sem perceber o que está acontecendo, terei morrido feliz: como morrem os que morrem enquanto dormem...

Por que estou pensando sobre isso? Por um lado, porque vôo demais... Ainda este mês estive em Taiwan, em Brasília, e agora vou para Redmond, Estado de Washington, Estados Unidos... Metade do mês viajando. Nos últimos quatro anos, desde 2003, quando aceitei o convite para ser membro do International Advisory Council do programa "Partners in Learning" ("Parceiros na Aprendizagem") da Microsoft, tenho voado cerca de 250.000 milhas por ano. Ir e voltar entre São Paulo a Brasília é um pouco mais de mil milhas. Ir e voltar em São Paulo e Chicago é um pouco mais de dez mil milhas. O que voei, em média, nos últimos quatro anos, representa,para cada ano, cerca de 250 viagens de ida e volta entre São Paulo e Brasília -- ou cerca de 25 viagens de ida e volta entre São Paulo e Chicago (um pouquinho mais de duas por mês...). Entendido agora por que a United me trata bem???

Mas tudo isso quer dizer que as minhas chances de morrer num acidente de automóvel no Brasil são menores do que minhas chancces de morrer num acidente de aviação -- apesar de acidentes, aqui em cima, serem bem menos freqüentes do que os lá embaixo...

Se levarmos em conta que meu primeiro vôo de avião foi em 1947, quando tinha três anos e meio, em um avião da Aerolíneas Natal, de Londrina a São Paulo, e que, de 1967 pra cá, creio que não houve um ano em que não tenha estado num avião, é algo próximo de um milagre que nem mesmo um "close call" eu tenha tido...

Providência, dirão meus amigos religiosos... Sorte, dirão meus amigos ateus... Sorte, digo eu, assistida pela competência humana que produz um pássaro desses, tão mais pesado do que o ar, mas que consegue voar, por quase 20 horas sem abastecimento, carregando toneladas e toneladas de gente e carga...

Antes de o vôo sair o Comandante Flores (nascido nos EUA, mas de pais espanhóis e mexicanos) veio cumprimentar os passageiros da primeira classe e da classe executiva. Já é a quarta ou quinta vez que vôo com ele. É uma simpatia -- e é competente. É o único piloto que vem conversar com os passageiros antes de sair, dá a mão a todos, joga uma conversinha fora... Classe.

Mas os vôos aéreos estão progredindo... Minha querida amiga, Márcia Teixeira, atualmente gerente de Educação para a América Latina da Microsoft, me chamou pelo MSN Messenger, no dia 15 último, dia do aniversário dela, de dentro de um avião da Lufthansa que ia de Miami para a Europa -- destino final, Atenas, Grécia... Conversamos durante vários minutos. Ela a milhares de quilômetros de distância, no nível do mar, e a cerca de 12 mil metros de altura... E nós, conversando. Fiquei lisonjeado de ela haver me chamado para compartilhar a alegria de estar podendo usar a Internet no céu -- @ Sky...

No momento meu iPod Nano toca Amazing Grace, com Anne Murray... Dá vontade de chorar, de tão bonito...

Ontem à noite, ainda em Campinas, assisti na TV The Notebook (Diário de uma Paixão). Chorei mais uma vez. Filme que alguns qualificam de "água com açúcar" -- mas que eu acho lindo de morrer. Atores lindos e competentes, história comovente -- e a música, ah a música, é I'll be seeing you"... (cantada por Billie Holiday): "I'll be seeing you in all the old, familiar places, that this heart of mine embraces, all day through"...

Se morresse agora, não me importaria. (Possivelmente, nem notaria...) Mas vai ser bom chegar em Chicago, de lá ir para Seattle, de lá ir para Redmond, ficar hospedado no delicioso Bellevue Club Hotel, parte da cadeia Small Luxury Hotels, em Bellevue, perto de Redmond... Lá vou me encontrar com meu amigo de mais de 25 anos, Fernando José de Almeida, da PUC-SP, com a Mônica Guazelli Franco, também da PUC-SP, que deveria ser proibida para diabéticos, tão doce que é, com a Ana Teresa Ralston, gerente de Educação da Microsoft Brasil -- e com Les Folton, americano meio típico, tentando virar brasileiro, amigo querido, namorado da Ana... E mais a Lauren Woodman, a Kristen Weatherby, a Liz Butowicz, todas elas pessoas muito legais, da equipe de educação da Microsoft Corp (worldwide)...

De Redmond vou até Cortland, Ohio, ver minha filha e minhas duas netas. A Andrea, minha filha que nasceu nos Estados Unidos e sempre viveu lá, e que, portanto, cresceu e virou mulher longe de mim, é a filha que mais se parece comigo em idéias, em temperamento, em gênio, em reações emocionais. Ela se casou com o Rick, talvez o mais americano dos americanos, e desse casamento me vieram me duas netas loiríssimas, de olhos azuais: Olivia e Madeline (na verdade, Olivia Grace e Madeline Kay...). Espero vê-las na quarta-feira. A Andrea e as meninas vão me pegar no aeroporto Logan de Cleveland e, juntos, iremos para a casa delas -- onde ficarei por quatro dias. Sairemos, iremos fazer compras, ficaremos em casa brincando no "family room", vendo TV, batendo papo, curtindo uns aos outros.

Agora vou parar de escrever um pouco e ver se durmo... 

No espaço aéreo entre São Paulo e Chicago, em 20 de maio de 2006

 

O socialismo, o liberalismo, a pobreza e a desigualdade

Confesso que sempre tive dificuldade para entender por que os socialistas (e simpatizantes) consideram a desigualdade econômica um problema social mais sério do que a pobreza. Para mim, que sou um liberal clássico convicto, o problema social maior é a pobreza. Se eu fosse pobre, e não tivesse um boa renda (um bom emprego ou uma empresa rentável), uma boa casa, um bom carro, dinheiro para comprar o que gosto de comer e beber, para viajar, para comprar livros, CDs, DVDs, etc., minha vida seria bem miserável. O fato de que eu tenho essas coisas, mas Bill Gates as tem numa proporção um bilhão de vezes maior do que a minha, não me incomoda em absolutamente nada.  Por isso, para mim, e para os liberais em geral, o problema social mais sério que existe é a pobreza — a pobreza, digamos, absoluta, não relativa, porque esse negócio de pobreza relativa nada mais é do que a questão da desigualdade econômica com outro nome.

Admito que só descobri ontem (19 de maio de 2006) por que é que os socialistas (e simpatizantes) consideram a desigualdade econômica um problema social mais sério do que a pobreza — e o descobri lendo aquele que eu considero o Paulo Coelho da academia socializante (explico o termo "socializante" mais adiante): Pedro Demo. O prolífico Pedro Demo é até um bom argumentador. Mas é ingênuo: abre demais o jogo. Outros autores socialistas (ou simpatizantes) talvez não argumentem tão bem quanto ele, mas certamente são mais hábeis nas artes de esconder o jogo, de obscurecer, ofuscar, obnubilar...

No que segue, quando eu falar em Socialismo, é ao Socialismo pós débâcle do Comunismo que estarei me referindo; quando falar em socialistas, é às viúvas do Comunismo que estarei fazendo referência. Considero os sociais democratas viúvas um pouco mais distantes do Comunismo: talvez viúvas que só se tornaram viúvas depois de já estarem vivendo em regime de separação de corpos com o falecido — mas mesmo assim em bons termos, tanto que insistem em aplicar o rótulo "esquerda" tanto às viúvas, propriamente ditas, como a si próprias. Por isso uso o termo "socializante": um socializante é um socialista, propriamente dito, ou um social-democrata, ou seja, um simpatizante do socialismo (que, entretanto, aparenta ter certa vergonha de alguns radicalismos históricos e até mesmo contemporâneos dos socialistas: a briga entre o PSDB e o PT é análoga à implicância da ex-mulher com a atual.

No seu livro A Pobreza da Pobreza, que comprei ontem na livraria da Universidade de Brasília que existe no aeroporto de Brasília, Pedro Demo deixa escancarada a estratégia dos socializantes. Aqui vou dar a minha leitura do que ele pensa (e o que ele pensa ele diz — algo que, aqui entre nós, considero um grande mérito).

Mas nem mesmo Pedro Demo diz tudo aquilo que ele sabe com todas as palavras — até a ingenuidade dele tem limites. Fica evidente em seu livro que ele claramente sabe (mas se recusa a dizer) que a pobreza (pobreza no sentido econômico do termo — mais adiante ficará claro porque tenho de fazer essa ressalva) é um problema plenamente solúvel, pelo menos em sociedades liberais — vale dizer, em sociedades que, do ponto de vista econômico, são claramente capitalistas. Tanto o problema da pobreza é solúvel que já foi solucionado em um grande número de países que adotam um regime político liberal e uma economia de livre mercado (o Capitalismo) e está sendo solucionado em outros, que resolveram adotar o Liberalismo um pouco tardiamente.

Nos Estados Unidos, por exemplo, só há pobreza porque os socializantes continuam redefinindo os critérios de pobreza que se aplicam lá. Para a África, por exemplo, pobre é quem vive com menos de dois dólares por dia (i.e., com menos de 60 dólares por mês) — havendo, segundo dizem, quem viva com menos de um dólar por dia no Sub-Saara. Nos EUA, porém, onde, a usar o mesmo critério adotado para a África, não existe pobre, os socializantes (que lá se chamam de liberais, para enganar os trouxas) redefiniram o critério de pobreza. Pobre nos EUA é o indivíduo que vive, em média, com menos de 400 dólares por mês (o nível de pobreza é, no momento, 1.600 dólares por mês para uma família de marido, mulher e dois filhos). Na Suíça, qualquer que seja o critério de pobreza adotado (desde não ad hoc), não há pobreza. Os portugueses que são trabalhadores migrantes lá, são, às vezes, considerados pobres pelos suíços. Mas os portugueses, eles mesmos, se consideram riquíssimos com os francos suíços que recebem — e que, levados para a casa, finda a temporada turística, dá para eles viverem sem trabalhar até a temporada seguinte. (Nunca me esqueço do que me disse um bell boy português em Genebra, quando carregava minhas malas para o meu quarto no Hotel Suisse: "Meu senhor, aqui na Suíça temos tantos portugueses que um dia certamente ainda vamos controlar essa terra". Que Deus não o ouça: os suíços vêm controlando o seu magnífico país tão bem, há tantos anos!)

Não é necessário ficar apresentando evidência de que a pobreza é um problema resolvido em países desenvolvidos (vale dizer: em países de economia de mercado, em países capitalistas) e em processo de resolução em países emergentes que não têm vergonha de seu Capitalismo. Pedro Demo sabe disso. Tanto que ele diz em seu livro (e isso ele diz clara e explicitamente) que a pobreza (que ele chama de econômica) não é o problema social mais importante. O problema social mais importante, segundo o gênio de Brasília, é o que ele chama de "pobreza política" — que, segundo ele, aflige até mesmo os ricos (economicamente falando).

(A terminologia de Pedro Demo o envolve em algumas complicações. O oposto de "pobreza política" deveria ser "riqueza política". Mas ele reluta em usar a expressão, preferindo a ela a sua própria criação: o oposto de "pobreza política" é, para ele, "qualidade política". Pelo jeito Pedro Demo objeta até mesmo ao uso da palavra "riqueza". Isso faz-me lembrar de um "causo". Por volta de 1985 era Vice-Reitor da UNICAMP uma peça chamada Ferdinando de Oliveira Figueiredo, economista, colega de José Serra, Paulo Renato Souza, Luciano Coutinho, Belluzzo, e João Manuel Cardoso de Mello no Instituto de Economia da universidade. Um dia, numa reunião que Figueiredo presidia, foi proposta uma resolução que dizia algo assim: "A comissão, reunida, tendo em vista o espírito do artigo tal da Portaria tal, resolveu que...". Ele objetou veementemente. A quê? A que se usasse a palavra "espírito" — e isso porque ele era materialista!!! Pedro Demo parece ter pruridos semelhantes quanto ao termo "riqueza" — mas só que, nesse caso, não é porque ele seja pobre).

Mas voltemos ao argumento de Pedro Demo. A “pobreza econômica” (i.e., aquilo que todo mundo menos ele entende como pobreza) não é um problema social sério para ele porque o problema real da pobreza, para ele, não está em alguém ter uma quantidade reduzida de dinheiro: o problema real da pobreza, para ele, está em alguém ter uma quantidade reduzida de dinheiro numa sociedade em que alguns têm muito dinheiro!!! Em outras palavras: a pobreza econômica, para Pedro Demo, só é um problema social numa sociedade em que há ricos... Pasmem, mas ele de fato diz isso. Conseguiu, através desse malabarismo conceitual e verbal, transformar o problema da pobreza no problema da desigualdade econômica.

Tomemos Cuba como exemplo — e deixemos Fidel Castro, com seu patrimônio de quase um bilhão de dólares, fora da equação. (Fidel Castro, naturalmente, nega: o que vocês esperariam, que ele admitisse???). Em Cuba a pobreza (econômica) não é um problema (apud Pedro Demo) porque, exceto pelo ditador perpétuo, todo mundo lá é pobre. Logo, lá não há desigualdade econômica: lá Fidel Castro conseguiu a proeza de realizar a igualdade econômica — tornando todo mundo miserável e fazendo com que paguem um preço enorme, em termos de liberdade, para a “conquista”... Mas isso Pedro Demo não diz — embora saiba.

Em contrapartida, a pobreza (econômica) é um problema sério nos Estados Unidos (apud a linha de argumentação de Pedro Demo), porque lá, embora lá os pobres tenham uma renda mínima per capita de pelo menos mil reais por mês (mesmo que estejam desempregados), Bill Gates e alguns amigos (e inimigos) seus são biliardários a ponto de nem conseguirem gastar eles mesmos aquilo que ganham, razão pela qual doam boa parte do que ganham para quem precisa...

É evidente que, para Pedro Demo, a pobreza (econômica) não é o problema social maior dos Estados Unidos: o problema social maior de lá é a riqueza!!! É contra ela que ele se bate, porque, não existindo a riqueza, a pobreza (econômica) automaticamente  deixa de ser problema lá também...

Vou resumir o argumento até aqui.

A pobreza (econômica) é um problema solúvel dentro de uma sociedade liberal-capitalista. Para os socializantes, portanto, admitir que a pobreza (econômica) é o problema social maior que nos confronta é admitir que o Capitalismo pode, eventualmente, resolver o seu principal desafio, e o está resolvendo (haja vista a China) — provando (mais uma vez) a superfluidade do Socialismo e, por tabela, das demais soluções igualitaristas.

Logo — ergo — a pobreza (econômica) não pode ser considerada o maior problema social: o maior problema social é a desigualdade econômica. A desigualdade econômica, perceberam os socializantes (e Demo faz questão de não esconder), é um problema que o Liberalismo capitalista nunca vai resolver — sem deixar de ser liberal... Assim, concluíram que devem concentrar sua atenção no problema da desigualdade econômica, porque apenas ela é um problema social que requer, para sua solução, receitas necessariamente socializantes — ainda que o preço pago pela igualdade econômica seja a miséria e a servidão de todos (como  visto no caso cubano).

Por que é que o Liberalismo nunca vai resolver o problema da desigualdade econômica? Porque o Liberalismo privilegia a liberdade, e a liberdade, quando existente em um contexto sócio-político em que as pessoas são tipicamente diferentes (vale dizer, desiguais) em suas características pessoais e em suas capacidades, resulta, forçosa e necessariamente, em desigualdades econômicas. Foi o Socialismo que privilegiou a igualdade econômica, em detrimento da liberdade. Logo, a igualdade econômica só é alcançável através de receitas socializantes.

Que fique mais uma vez registrado, porém, que a igualdade alcançada com receitas socializantes é igualdade na miséria, e que essa igualdade na miséria só é alcançável com um alto custo político, decorrente das perdas indiscutíveis da liberdade. A igualdade econômica preconizada pelos socializantes é, como os fatos inequivocamente têm provado, uma igualdade por baixo: igualdade na miséria (acompanhada de servidão), nunca igualdade na riqueza, nem mesmo na prosperidade. (Mme de Staël mereceria o rótulo de gênio ainda que tivesse escrito apenas esta frase: "os socialistas preferem a igualdade do inferno à desigualdade do céu").

É por isso que Pedro Demo considera a desigualdade econômica o problema social maior. É por isso que Pedro Demo considera o que ele chama de "pobreza econômica" um problema menor, considerando o problema maior aquilo que ele chama de "pobreza política": a pobreza em um contexto em que alguns se tornam ricos e outros (segundo ele pretende) "são impedidos" de sair de sua pobreza (econômica)... Ou seja: aquilo que ele, neologisticamente, chama de "pobreza política" nada mais é do que a velha desigualdade., com uma nova cara.. 

É preciso, porém, comentar a expressão "são impedidos"...

Desde que o mundo é mundo as pessoas nascem nuas, desdentadas, ignorantes (analfabetas como a mãe do Lulla), incompetentes, totalmente dependentes do cuidado dos outros — enfim, pobres, tanto de bens materiais como daquilo que poderíamos chamar de bens imateriais. Mas as pessoas nascem com uma grande capacidade de aprender (que, apesar de grande, pode, naturalmente, ser maior ou menor, dependendo de cada pessoa). A capacidade de aprender se encaixa em um certo grupo de características que variam de pessoa para pessoa e que as fazem únicas, insubstituíveis. Algumas dessas características, claramente físicas, são basicamente imutáveis, como a cor da pele e a cor dos olhos. Outras, entretanto, embora ainda físicas, se assemelham mais a potenciais do que a realidades. Se meus ancestrais são todos baixos, eu provavelmente não vou ser muito mais alto do que eles. Ou seja, a genética impõe certos limites à altura máxima que eu vou poder alcançar quando adulto. É verdade que alimentação, exercício, etc. poderão me levar até o limite máximo dessa altura (que eu nunca vou saber qual é a priori) — mas poderão também me deixar no "piso mínimo".

Há razoável consenso hoje em dia, alcançado em cima de fatos incontestáveis e  de argumentos difíceis de refutar, no sentido de que a capacidade de aprender, vale dizer, a inteligência, é, em grande parte, herdada. Discute-se quanto da inteligência é herdado, quanto se deve ao ambiente. Algo em torno de 0.6 a 0.8 da inteligência é hoje reconhecido como hereditário. É inegável, porém, que pessoas muito inteligentes (QI acima de 150) podem ser fracassos totais em termos econômicos e até mesmo sociais — enquanto pessoas com QI médio (ao redor de 100) podem ser tornar milionárias. Isso apenas refuta a tese de uma correlação automática e simplista entre inteligência e riqueza: não refuta, porém, o fato de que sucesso econômico (e social) é, em grande medida, e na maior parte dos casos, correlacionado positivamente com o nível de inteligência das pessoas, com sua capacidade de aprender — fato que sugere uma conexão causal. Essa correlação precisa levar em conta, entre outras variáveis, o contexto histórico-social-cultural em que as pessoas nascem e vivem e, também, o elemento sorte (que indiscutivelmente tem o seu papel, por mais que os socializantes procurem negar).

Segundo os socializantes, nada disso é relevante. Para eles, as diferenças individuais decorrentes da hereditariedade não são significativas; o contexto histórico-social-cultural em que as pessoas nascem e vivem não é significativo; o elemento sorte não desempenha um papel importante no destino das pessoas. Os socializantes, ao erigirem o igualitarismo como bandeira, são levados a defender a tese de que as pessoas devem possuir condições econômicas (e sociais) basicamente iguais, não só independentemente do que façam, mas independentemente de seu equipamento genético, das condições históricas-sociais-culturais em que lhes foi dado nascer e viver, de fatores acima de qualquer controle, como a sorte, ou de qualquer outro fator.

Para o Liberalismo, por outro lado, as diferenças entre as condições econômicas das pessoas são, em grande medida, devidas ao equipamento genético que elas herdaram, às condições históricas-sociais-culturais em que nasceram, à combinação de sorte e azar com que foram bafejadas, e o que elas conseguiram fazer de tudo isso.

Não há, para o Liberalismo, uma força externa (uma conspiração das elites, dos ricos, dos poderosos, ou de quem quer que seja, talvez de um conluio do Opôs Dei com a Maçonaria...) que "impede" os pobres de sair de sua pobreza, de se tornarem classe média, eventualmente de se tornarem ricos. O que os impede de mudar de condição econômica é sua própria capacidade, em geral limitada, e geneticamente herdada, as condições históricas-sociais-culturais em que lhes foi dado nascer, outros fatores fortuitos que podemos resumir pelos rótulos sorte e azar, e o que eles conseguiram fazer de tudo isso. Não há, nessa visão, uma conspiração da elite, dos ricos, dos poderosos, ou de quem quer que seja, para manter os pobres pobres... A quem interessaria isso? A teoria conspiratória é ingênua... boba.

Para o Liberalismo a pobreza é uma condição que, em princípio, pode ser deixada para trás até mesmo por quem tem capacidade limitada. Quem nasce pobre mas tem capacidade, não só sai da pobreza como fica rico. Aqui no Brasil temos múltiplos exemplos de gente que nasceu extremamente pobre e hoje está rica. Pelé, os Ronaldos, Zezé de Camargo e Luciano, o próprio Lulla. Essas pessoas sem dúvida têm capacidades acima da média nas áreas em que resolveram atuar. Além disso, têm paciência, persistência, resiliência. E, sem dúvida, foram bafejadas pela sorte: estavam no lugar certo, na hora certa, e souberam agarrar as oportunidades pelos cabelos.

Os socializantes vão protestar de que os exemplos dados são todos de esportistas e artistas. O caso de Lulla não é (se bem que eu tenda a considera-lo mais um artista do que um político). E há muitos outros que não são.

Em Redmond, WA, 21 de maio de 2006

 

Existe um "direito ao respeito"???

[Transcrevo - EC]

Catholic Leaders Need to Show a Little Respect for Freedom

By Debi Ghate

This summer's blockbuster movie "The Da Vinci Code" is set to hit the big screen surrounded by controversy. Some Catholic leaders have asked their faithful to speak out against the film and to boycott it. Some bishops, however, take it even further than that. Archbishop Angelo Amato, a high-ranking Catholic official, says the movie is full of "offences, slander, historical and theological errors concerning Jesus, the gospel and the Church," which if "directed towards the Koran or the Shoah would have justifiably provoked a worldwide revolt. Yet because they were directed toward the Catholic Church, they remain unpunished." And Cardinal-Bishop Francis Arinze, a Papal candidate last year, added ominously: "Those who blaspheme Christ and get away with it are exploiting the Christian readiness to forgive and forget and to love even those who insult us. There are some religions that if you insult their founder they will not be just talking. They will make it painfully clear to you." (Emphases mine)

In issuing such veiled threats, the bishops are no doubt hinting at the vehement Muslim reaction to the Danish cartoons. In a frenzy of violence, Danish embassies were torched, people were murdered and the cartoonists went into hiding as protestors carried signs with slogans such as "Massacre those who insult Islam."

How can the bishops possibly call such actions justified and suggest that Christians imitate them?

Because, they claim, a person has a right to have his core beliefs respected--a right the cartoonists and filmmakers violated. "This is one of the fundamental human rights," Cardinal-Bishop Arinze pronounced in a statement eerily reminiscent of what Imams said regarding the Danish cartoons: "that we should be respected, our religious beliefs respected, and our founder Jesus Christ respected." The Bishops are demanding respect--but can respect be demanded?

To respect something means to hold it in high regard. Respect is something that we reserve for the people and ideas we judge to be worthy of our love and admiration--we reserve it for what we value. Our respect is a precious commodity, used to express our sanction and approval of others and their actions. We respect Thomas Jefferson for writing the Declaration of Independence. We respect American soldiers who defend this great country's values. In contrast, we disrespect, even hate, those who oppose our values. If a white supremacist comes to your town to deliver a speech advocating that non-whites should be corralled and shot, do you have an obligation to respect his beliefs? Or should you speak out against what you consider to be evil, and in favor of what you judge to be good? And other cases are harder to judge. If your neighbor believes that a hard-working Mexican busboy should be deported because he is here without a work permit, do you have an obligation to respect that belief?

By suggesting that there is a "right to respect." the bishops are clamoring that we owe them respect regardless of whether we think their beliefs are true or false, worthy of our admiration or denunciation. Many people, of course, do respect the Catholic Church, but others agree with Enlightenment thinkers like Voltaire, who concluded: "Christianity is the most ridiculous, the most absurd and bloody religion that has ever infected the world." Respect can only be granted willingly, where we judge it to be due, not demanded by those whose ideas we conclude to be false or despicable. There can be no "right" to be respected.

By claiming that their "rights" have been violated, the bishops are calling for their faithful to demand government protection from "offensive" content. By asking that the filmmakers be punished, they are asking for censorship--for the filmmakers to silence themselves or be silenced by force. And their statements make it clear: If the government won't censor the filmmakers, Christians should make their displeasure "painfully clear." "Respect" granted at the point of a gun is not respect at all--it is a ransom for your life.

Our Founding Fathers created a revolutionary system that protects each individual's rights, including the right to express his ideas regardless of their popularity or whom they offend. Our country is proof that the system works. Catholics can voice their displeasure, even their disrespect, for a movie; filmmakers can present a controversial story that millions will pay to see. Each can criticize the other and peacefully walk away. It is in that spirit that "The Da Vinci Code" filmmakers have a right to release their movie without the threat of force from Catholic bishops. And this is a right the bishops need to learn to respect.

Debi Ghate is Vice President of Academic Programs at the Ayn Rand Institute (http://www.aynrand.org/) in Irvine, Calif. The Institute promotes Objectivism, the philosophy of Ayn Rand--author of "Atlas Shrugged" and "The Fountainhead."

 
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Trancribed, for educational purposes, by Eduardo Chaves in Salto, SP, Brazil, on the 16th of May of 2006

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Aprendizagem e projetos de aprendizagem

O ser humano não aprende sozinho, e, portanto, não se educa sozinho. Sua aprendizagem, e, portanto, a sua educação, acontece em um contexto social. Mas esse fato não quer dizer que a aprendizagem do ser humano é exclusiva e necessariamente produzida pela ação de terceiros, e que, portanto, outros o educam.

É conhecida a tese de Paulo Freire de que ninguém educa ninguém, mas ninguém, tampouco, se educa sozinho: o ser humano se educa em comunhão, no contexto de viver sua vida neste mundo (Pedagogia do Oprimido).

Ou seja, ninguém educa ninguém e ninguém se educa sozinho: nós nos educamos uns aos outros à medida que interagimos uns com os outros, à medida que tentamos nos transformar, de criaturas incompetentes e dependentes, em adultos independentes e competentes, capazes de definir autonomamente um projeto de vida e de transformá-lo em realidade.

A aprendizagem humana, portanto, não é produzida exclusiva e necessariamente pela ação de terceiros, nem, tampouco, se produz exclusivamente por aquele que aprende (o aprendente), sem a interferência de terceiros.

É importante ressaltar que mesmo a ação intencional de terceiros na aprendizagem, e, portanto, na educação de uma criança pequena deve ter como objetivo o desenvolvimento da autonomia e a construção da competência por parte da criança.

Se isso não se der, não estaremos tratando a educação como um processo de desenvolvimento humano. Adoto o conceito de educação como desenvolvimento humano, que tem o foco no indivíduo e no seu desenvolvimento -  mesmo que reconheça que esse desenvolvimento se dá num contexto social e envolva, necessariamente, interação ("comunhão") com outros seres humanos.

Aprender, portanto, é construir competência: é conseguir fazer o que antes não se conseguia fazer, e, portanto, envolve ampliação da autonomia.

Sendo uma capacidade humana, competência é algo que o ser humano não traz consigo ao nascer: ele tem de adquiri-la - e é através da aprendizagem que ele a adquire. Educação é o nome dado a esse processo de aquisição ou construção de competências através da aprendizagem, com vistas à crescente autonomização do indivíduo.

E a aquisição de competências, embora se dê em um processo de colaboração com outros seres humanos, não se dá ?à revelia do indivíduo?, isto é, sem sua ativa participação. É por isso que se afirma, corretamente, que a aprendizagem é sempre ativa e colaborativa - o termo "colaboração" sendo composto de elementos que enfatizam a "ação" em "trabalho conjunto" (co-labor).

O Programa "Sua Escola a 2000 por Hora" tem insistido na tese de que a educação deve ter lugar através da metodologia de projetos de aprendizagem via tecnologia digital.

A construção da aprendizagem é algo que só acontece quando o aluno é ativo, quando está interessado no que está fazendo, quando sua motivação é intrínseca, não extrínseca. Isso significa, que a aprendizagem, para ser bem sucedida, é auto-gerada ou auto-iniciada, e, não só isso, mas, também, auto-conduzida e auto-sustentada. Ela decorre daquilo que o aluno faz, não de algo que o professor faz nele, para ele ou por ele.

O Programa Sua Escola a 2000 por Hora defende a tese de que a aprendizagem que acontece quando os alunos se envolvem em "projetos de aprendizagem", de sua própria escolha, alicerçados em seus interesses, e em geral transdisciplinares, é a aprendizagem mais desejável, por uma série de razões, que a seguir são especificadas:

1) A pedagogia de projetos de aprendizagem vê a educação, e, portanto, a aprendizagem como o principal mecanismo pelo qual o ser humano projeta e constrói a sua própria vida, e, portanto, como algo que lhe é natural e intrinsecamente motivador, procurando, assim, evitar que a criança seja vista como um ser essencialmente refratário à aprendizagem, que precisa, por isso, ser obrigado a aprender através de mecanismos artificiais de recompensas e punições que agem como motivadores externos.

2) A pedagogia de projetos de aprendizagem incentiva a criança a explorar e a investigar seus interesses - as coisas que ela gosta de fazer e que gostaria de aprender - e atribui ao educador a responsabilidade de encontrar maneiras de, a partir desses interesses, tornar a atividade da criança útil no desenvolvimento das competências básicas necessárias para que ela se torne capaz de sonhar seus próprios sonhos e transformá-los em realidade, procurando, assim, evitar que a criança seja obrigada a deixar de lado seus interesses, sua imaginação e sua criatividade ao entrar na escola.

3) A pedagogia de projetos de aprendizagem procura evitar que a aprendizagem se torne algo passivo, e, por conseguinte, desinteressante, abrindo o maior espaço possível para o envolvimento ativo da criança, não só na concepção e na elaboração dos seus projetos de aprendizagem, mas também na sua implementação e avaliação, pois esse envolvimento não só a motiva (por estar relacionado com seus interesses) como torna a sua aprendizagem ativa e significativa - um real fazer mais do que um mero absorver de informações.

4) A pedagogia de projetos de aprendizagem procura, assim, estabelecer uma estreita relação entre a aprendizagem que acontece na escola e a vida e a experiência da criança, reconstituindo o vínculo entre seus processos cognitivos e seus processos vitais, pois os projetos que ela escolhe partem, inevitavelmente, de questões relacionadas à sua vida e à sua experiência que lhe parecem importantes e sobre as quais ela se interessa em aprender mais.

5) A pedagogia de projetos de aprendizagem rejeita a noção de que todas as crianças devam aprender as mesmas coisas, pelos mesmos métodos, nos mesmos ritmos e nos mesmos momentos ? independentemente de seus interesses, de suas aptidões, de seu estilo cognitivo, de seu estado de espírito, etc.

6) A pedagogia de projetos de aprendizagem busca, portanto, evitar que o objetivo do aprendizado escolar seja definido como a absorção, pela criança, de grandes quantidades de informação (fatos, conceitos, princípios, valores, procedimentos), e que o aprender da criança seja visto como o sub-produto esperado da ação do professor (algo que se espera que o professor faça, através do ensino, e que a criança apenas "sofre", em mais de um sentido).

7) A tecnologia digital é parte integrante e indissociável na metodologia de projetos de aprendizagem pelo fato de ser um espaço efetivo para: interação, aprendizagem colaborativa, disseminação de processos e resultados.

Em Salto, 16 de maio de 2006 (texto originalmente escrito para o site http://escola2000.org.br)

Matética

Matética [Mathetics, em Inglês] é um termo que quer dizer, para a aprendizagem, aquilo que Didática quer dizer para o ensino, a saber, a arte de...

Sempre gostei do termo, mas achei que era meio forçado... Foi vê-lo usado por Seymour Papert que me levou a tentar introduzi-lo no discurso educacional de hoje.

Em grego, mathetés é aprendiz, aprendente, pupilo, discípulo: o que aprende... Mathetría é a mesma coisa, só que no feminino... Mathetêia ou máthema é aquilo que se aprende... (De máthema vem matemática...).

O verbo aprender parece ter sido manthaneîn, bastante irregular, que tinha manthâno como primeira pessoa do singular no presente do indicativo e mathête no imperativo (donde mathetés). Parece que subseqüentemente o verbo foi meio regularizado para matheîn, para ficar mais próximo das principais formas substantivas.

Um dos significados de mantheneîn / matheîn que dá o meu dicionário de Grego (W. Bauer's) é "aprender, apropriar para si mesmo -- mais pela experiência e pela prática do que pela instrução".... Um segundo sentido é "descobrir, aprender por descoberta"... Gosto bem mais desses sentidos do que o outro: "aprender através da instrução"... 

Só não encontrei um outro sentido que valorizo bastante: aprender pela troca de idéias, pelo diálogo, pela discussão, pela crítica... Se aparecesse, teríamos aí algo parecido com os meus "Modelos de Aprendizagem"!

Outro termo relacionado é heurística -- que se refere à arte de descobrir. Como descobrir é uma forma de aprender, a heurística seria parte da matética... A heurística seria o aprender pela descoberta.

Não creio que em Grego tenha havido um termo que corresponda ao nosso "Matética" (Inglês: Mathetics]. Se houvesse, seria, como adjetivo, de ser "mathetikós"... Não tenho idéia de como o termo seria substantivado. Se alguém souber, por favor, me escreva (eduardo@chaves.com.br).

Vindo para o presente, acho que as Faculdades de Educação deveriam, em vez de ensinar didática, isto é, ensinar o professor como ensinar, criar ambientes em que ele aprendesse (por experiência, prática, descoberta...) como o aluno aprende... Isto significaria substituir a didática pela matética.

(*) Passagem retirada de uma mensagem minha enviada à lista 4pilares (vide http://4pilares.net). A passagem está transcrita em meu site http://mathetics.net.

Em Salto, 11 de maio de 2006

Modelos de aprendizagem

Uma análise das várias teorias de aprendizagem nos permite agrupá-las, grosso modo, em três grandes grupos:

a) Teorias que vêem a aprendizagem como sendo em grande medida decorrente do ensino -- isto é, decorrente da ação de pessoas que sabem algo, ou sabem fazer algo, e ensinam a outros aquilo que sabem, ou sabem fazer.

b) Teorias que vêem a aprendizagem como sendo em grande medida decorrente de atividades da própria pessoa que aprende, atividades essas que englobam a observação e a imitação, a investigação e a pesquisa, o estudo e a reflexão.

c) Teorias que vêem a aprendizagem como sendo em grande medida decorrente de interação entre as pessoas, interação essa que se manifesta através da troca de idéias, do diálogo, da discussão e da crítica.

o O o

Embora nenhuma aprendizagem seja totalmente passiva, é evidente que o grau de passividade do aprendente nas teorias do tipo "a" é muito maior do que nas outras duas. É por exigir do aprendente uma postura ativa que prefiro caracterizar as teorias do tipo "b" e "c" como teorias de aprendizagem ativa. Vou, portanto, reservar a elas a atenção.

Quando alunos se envolvem em projetos de aprendizagem, sua aprendizagem deixa de ser passiva e passa a ser ativa: para aprender, eles precisam fazer algo que vá além de prestar atenção. Esse aspecto ativo da aprendizagem - esse "fazer algo" - não precisa, necessariamente, envolver ação física - mas ela certamente não está excluída.

As principais modalidades de aprendizagem ativa, já mencionadas anteriormente, são:

  • Aprendizagem Exploratória, por Observação e Imitação, Investigação e Pesquisa, Estudo e Reflexão

  • Aprendizagem Colaborativa, por Troca de Idéias, Diálogo, Discussão, e Crítica

Refiro-me a Paulo Freire, em passagem em que diz que "ninguém educa ninguém, como tampouco ninguém se educa a si mesmo", pois o ser humano se educa em sua convivência - que ele chama de "comunhão" - com outros seres humanos [1]. É importante não esquecer, porém, que a comunhão de espíritos entre seres humanos pode acontecer de mais de uma maneira, direta ou indireta, interativa ou não-interativa, sendo possível, portanto, caracterizar pelo menos duas modalidades de comunhão de espíritos - que correspondem às duas modalidades de aprendizagem ativa.


Aprendizagem Exploratória, por Observação e Imitação, Investigação e Pesquisa, Estudo e Reflexão

A primeira modalidade de aprendizagem ativa, que também pode se denominar Aprendizagem Exploratória [2], inclui situações como as seguintes:

  • quando temos acesso ao que outros seres humanos escreveram ou produziram (artigos, livros, sites na Internet, composições musicais, fotografias, filmes, pinturas, esculturas, etc.), e refletimos sobre esse legado, com o intuito de encontrar subsídios para nossas tentativas de responder às nossas próprias questões, de resolver os nossos próprios problemas, ou de simplesmente usufruir o que de belo nos é dado pela atividade criativa inteligente do ser humano;

  • quando, na busca de resposta a alguma pergunta ou solução a algum problema, que sempre herdamos de outros seres humanos, nos propomos estudar, pesquisar ou investigar a questão, pela observação pura e simples da natureza, pela experimentação, ou pelo estudo das tentativas de outrem, com o intuito de descobrir uma resposta ou inventar uma solução que possa ser útil - para nós ou para os outros;

  • quando, com o intuito de compartilhar com outros seres humanos o que aprendemos, tentamos escrever ou produzir alguma obra (como um artigo, um livro, um site na Internet, uma composição musical, uma fotografia, um filme, uma obra de arte, etc.);

  • quando observamos a ação de outros seres humanos, mesmo que eles não saibam que os estamos observando, e refletimos sobre essa ação, procurando descobrir o que os leva a agir desta ou daquela forma, quais são as convicções e os valores que aquele comportamento exemplifica, etc., com o intuito de tirar lições para a nossa própria vida;

  • quando, depois de ter em mãos todas as informações necessárias, encontramos uma nova forma de olhar para elas ou de "navegar" por elas [3].

Outros seres humanos são parte essencial dessa modalidade de aprendizagem, pois ela envolve comunhão de espíritos, ainda que essa comunhão se dê sem interação direta com eles (razão pela qual alguns chamam essa modalidade de aprendizagem ativa de Auto-Aprendizagem). Quando estudamos, pesquisamos, e investigamos, quando refletimos sobre as ações dos outros, ou quando tentamos lhes comunicar nossas experiências, idéias e sentimentos aprendemos muita coisa. Esse aprendizado, que se dá sempre em função de algum interesse nosso, exige ação de nossa parte - ainda que seja a ação de observar os outros e refletir sobre o que estão fazendo - e não se compara com o aprendizado que a escola tradicional espera que os alunos tenham - que, além de passivo, tem, em regra, como objeto, informações que não se relacionam com seus interesses.


b. Aprendizagem Colaborativa, por Troca de Idéias, Diálogo, Discussão, e Crítica

A segunda modalidade de aprendizagem ativa, que também pode ser denominada de , de Aprendizagem Colaborativa, porque ela não acontece sem a colaboração dos outros [4]. Ela inclui situações em que intencionalmente nos colocamos em posição de interagir com outros seres humanos, seja com o intuito claro e explícito de aprender, seja com o intuito de fazer alguma outra coisa, como, por exemplo, nos entreter, ou mesmo fazer passar o tempo, que acaba por produzir a aprendizagem como sub-produto. Nesta modalidade de aprendizagem aprendemos pela troca de idéias e informações, pela discussão, pela crítica recíproca, pelo reforço emocional mútuo - enfim, pela colaboração e pelo diálogo.

Essa segunda modalidade de aprendizagem pode se dar no plano presencial - quando as pessoas estão presentes no mesmo local na mesma hora - ou, alternativa cada vez mais viável, no plano virtual - quando as pessoas colaboram e dialogam a distância, usando espaços e ambientes virtuais criados pela tecnologia (até mesmo por uma tecnologia simples e antiga como a correspondência convencional) para aprender.

o O o

É preciso ressaltar que as duas modalidades de aprendizagem ativa envolvem comunhão de espíritos - noção para a qual Paulo Freire chama a nossa atenção - e que, portanto, nenhuma delas, nem mesmo a primeira, que também é chamada de auto-aprendizagem, deve ser caracterizada como uma aprendizagem em isolamento do outro, uma aprendizagem sozinho, no sentido literal.


NOTAS

[1] Paulo Freire, Pedagogia do Oprimido (Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro, 6ª edição, 1979), p.79.

[2] Outros rótulos dados a essa modalidade de aprendizagem são: Aprendizagem por Descoberta, denominação que enfatiza mais o resultado do que o processo, e Auto-Aprendizagem, denominação que chama a atenção para o fato de que ela acontece, em regra, sem contato direto e interativo com outros seres humanos.

[3] A Internet, por exemplo, através da World Wide Web, não só nos permite, como nos impõe, uma nova maneira de navegar pelas informações. Na Web não temos apenas textos: temos hipertextos, textos com links, textos que nos levam a outros textos, não de forma linear, como os textos tradicionais, mas ao sabor da associações de idéias (nossas e de quem construiu os sites que visitamos). Eis o que diz Andrea Cecília Ramal em Entrevista a Renato Deccache in Folha Dirigida, 10 de Outubro de 2002: "Folha Dirigida - Por que a senhora afirma que a Internet representa um novo paradigma para a educação? Andrea Ramal - Eu venho realizando uma pesquisa há dez anos sobre esse tema, que tenta verificar como mudou a mentalidade humana a partir do uso do hipertexto. Então, minha teoria é de que, escrevendo linearmente, as pessoas desenvolvem um determinado tipo de estrutura mental. E por navegar em hipertexto, elas estão, hoje em dia, desenvolvendo um outro tipo de estrutura mental capaz de fazer links, relacionar conhecimentos, de promover a própria autoria, porque, quando um indivíduo navega, ele é o autor de seu próprio percurso. Além disso, essa pessoa, ao mesmo tempo, desenvolve maior capacidade de comunicação com outros porque ela acaba fazendo parte de um grande autor coletivo, que é esse universo de pessoas que estão cadastrando conhecimento, conteúdo e informação na Internet. E o que isso gera? Uma série de relações com o conhecimento que a escola, até hoje, não conseguiu produzir. Por quê? Porque a escola ainda é linear. Ela é estruturada em cima de um currículo que se forma como degraus. Tenho de estudar um conteúdo para, só depois, estudar um outro; tenho de reunir todas as crianças por idade e não por interesses ou projeto de pesquisa; tenho de dar a elas textos em que elas não podem ser autoras mas em que elas têm de descobrir o que o autor quis dizer. Então, a Internet, por trazer esse elemento digital e intertextual, que torna o conhecimento fluido, móvel, dinâmico, provoca a escola tradicional. Por isso, digo que a escola não será mais a mesma depois da relação das pessoas com o conhecimento através de meios digitais. Folha Dirigida - A senhora considera que ainda vai demorar muito para a escola incorporar, em sua plenitude, todas estas mudanças? Andrea Ramal - Por tradição, a escola é lenta para mudar. E isso não é um aspecto negativo, no meu modo de ver. Isto indica que na escola existem profissionais reflexivos, que não mudam por modismos. Eles têm de ter muita segurança para mudar. Mas, nesse momento específico, acho que a mudança será mais rápida porque não existe como optar por ela. Nós já estamos na cibercultura. Não se trata de uma escola escolher se quer ou não ter um currículo hipertextual ou em rede. Ela terá este currículo porque o aluno já vai participar disso no mundo exterior à escola."

[4] Um outro rótulo para essa modalidade de aprendizagem é Aprendizagem Dialógica, porque o conceito de diálogo engloba a troca de idéias de idéias, a discussão e a crítica.

(*) Passagem retirada de meu livro, no prelo (Julho de 2003), Uma Nova Educação para uma Nova Era.

Em Salto, 11 de maio de 2006 [reproduzido de material constante eu meu site http://mathetics.net]


 

Learning pathways: Caminhos para a aprendizagem

A educação é o processo pelo qual o ser humano se desenvolve, transformando-se, a partir de um bebê incompetente e, por causa disso, totalmente dependente, em um adulto competente e autônomo.

A aprendizagem é o único caminho para a educação, assim concebida.

No entanto, os caminhos para a aprendizagem são múltiplos. Dizer que são múltiplos e variados os caminhos que levam à aprendizagem não quer dizer, porém, que esses caminhos se igualem em eficácia e eficiência.

Como eu disse no artigo "Modelos de Aprendizagem", disponibilizado no meu site http://mathetics.net, que trata de assunto muito semelhante ao deste site, uma análise das várias teorias da aprendizagem nos permite agrupá-las, grosso modo, em três grandes grupos:

a) Teorias que vêem a aprendizagem como sendo em grande medida decorrente do ensino -- isto é, decorrente da ação de pessoas que sabem algo, ou sabem fazer algo, e ensinam a outros aquilo que sabem, ou sabem fazer.

b) Teorias que vêem a aprendizagem como sendo em grande medida decorrente de atividades da própria pessoa que aprende, atividades essas que englobam a observação e a imitação, a investigação e a pesquisa, o estudo e a reflexão.

c) Teorias que vêem a aprendizagem como sendo em grande medida decorrente de interação entre as pessoas, interação essa que se manifesta através da troca de idéias, do diálogo, da discussão e da crítica.

O terceiro desses modelos não se reduz aos dois primeiros. Quando aprendemos de forma colaborativa, interagindo com outras pessoas, temos um modelo de aprendizagem próprio: nele, nem, de um lado, os outros nos estão nos ensinando, e tampouco nós a eles, nem, por outro lado, estamos aprendendo por nós mesmos.

Esses seriam os três grandes caminhos para a aprendizagem.

Pode haver, dentro deles, diferentes estilos de aprendizagem:

No primeiro e no terceiro modelo, o aprendente pode ser mais ativo ou mais passivo. No segundo, não há como ser passivo e ainda aprender.

Além dos estilos mais ativos ou mais passivos de aprendizagem, há outros estilos. Algumas pessoas aprendem mais facilmente manipulando idéias, conceitos, e enunciados apresentados de forma escrita -- isto é, manipulando textos. Outras aprendem mais facilmente manipulando ideáis, conceitos e enunciados apresentados oralmente -- isto é, em conversas, discussões, trocas de idéias realizadas face-a-face. Ainda outras aprendem mais facilmente lidando com imagens, gráficos, esquemas que representam idéias, conceitos e enunciados visualmente, não de forma explicitamente verbal. Os estilos ativos e passivos se misturam com esses outros. Há aprendentes ativos que, ao lidar com idéias, conceitos e enunciados, precisam esquematizá-los, elas mesmas, gráfica ou visualmente. Outras aprendem de maneira igualmente eficaz e eficiente inspecionando esquemas gráficos ou visuais elaborados por terceiros. Outras só aprendem se conseguirem repetir o que leram ou ouviram em suas próprias palavras. Outras aprendem bastante bem memorizando o essencial do que foi lido ou dito em palavras muito próximas das utilizadas originalmente.

Neste site vou procurar colocar artigos e outras contribuições que discutam essas questões.

Não deixem, porém, de visitar os sites http://learningpathways.net e  http://mathetics.net. E, desejando, visitem também o  meu portal: http://chaves.com.br.

Em Salto, 10 de maio de 2006

A "externalização" do trabalho: o trabalho "invisível"

No mais recente livro de Alvin Toffler (Revolutionary Wealth, publicado no mês passado), ele tem uma seção interessante sobre a "externalização do trabalho". As empresas já faziam a terceirização do trabalho (que em Inglês se chama "outsourcing"). Externalização (que em Inglês é "externalization" mesmo) é algo diferente. Uma empresa terceiriza parte de seu trabalho para outra empresa. As duas empresas continuam na economia do dinheiro (vamos chamá-la assim: em Inglês é "money economy"). No caso da externalização, o trabalho não é feito por outra empresa: é feito pelos clientes -- sem que, normalmente, eles sejam pagos por isso. Quando são pagos, são pagos na forma de menores preços. Isso faz com que uma quantidade enorme de trabalho simplesmente desapareça dos índices econômicos, porque ele não é pago, e, conseqüentemente, não é monetarizado.

A coisa começou lá atrás, mas só agora adquire proporções gigantescas.

Em 1916 foi inventado o supermercado. Antes de ele existir, nos armazéns e empórios as pessoas chegavam, falavam com o dono ou um seu funcionário, pediam o que queriam, o dono ou o funcionário pegava, pesava (se necessário), embrulhava e entregava ao freguês, que pagava e levava a mercadoria embora. Às vezes um menino do estabelecimento até mesmo levava a mercadoria até à casa do freguês. Com o supermercado, os fregueses (agora chamados de clientes) fazem a maior parte do trabalho. Eles procuram o que desejam, eles mesmos pegam da prateleira e colocam no carrinho de compra o que vão levar, quando os produtos precisam ser pesados (como frutas, verduras, vegetais), eles mesmos, clientes, os pegam, colocam em saquinhos plásticos, pesam e etiquetam, etc.

Na maior parte dos supermercados ainda há uma pessoa operando como caixa, que escaneia os produtos e recebe o pagamento. Os clientes em geral empacotam os produtos eles mesmos. Mas a pessoa operando como caixa já não existe em muitos locais nos EUA. Lá já há vários supermercados que têm alguns caixas sem gente... O cliente, ele próprio, escaneia o produto, passa o cartão de crédito no local indicado, autoriza o pagamento, recebe a Nota Fiscal, empacota, e vai embora, ele mesmo empurrando o carrinho, sem interagir com um ser humano. (Isso exige, naturalmente, um certo nível de confiança - alimentada por sistemas de fiscalização, em geral remotos, via câmeras). Em outras palavras: o cliente faz o serviço que, anteriormente, era feito por vários empregados. E não é pago por isso. É verdade que, com a economia em mão de obra, o supermercado pode oferecer preços menores -- e é por isso que os clientes se prestam a fazer parte do seu serviço, sem outra remuneração além do preço menor, "externalizando" o trabalho do supermercado. Mas o preço menor indica menor faturamento (embora o supermercado possa aumentar o faturamento vendendo para mais pessoas ou vendendo mais para as mesmas pessoas). A economia de recursos financeiros some da economia formal, monetarizada.

Postos de abastecimento de combustível nos EUA eram como no Brasil: tinham antendentes, que colocavam combustível, limpavam o parabrisa, checavam a pressão dos pneus, etc. Depois começaram a oferecer algumas bombas de self-service -- com preço mais barato... Ali o cliente para, abre o reservatório de combustível, aperta os botões indicados, libera combustível, enche o tanque, fecha o reservatório, passa o cartão de crédito no local indicado, pega o recibo e vai embora -- sem interagir com um ser humano. O incentivo: preço mais barato do combustível naquelas bombas self-service. Hoje tudo é self-service: isso quer dizer que o trabalho foi totalmente "externalizado" para o cliente, que na realidade trabalha (sem remuneração) para o posto de abastecimento. Se você precisar de ajuda de um atendente, está mal: na maior parte dos postos americanos, não vai encontrar. E ninguém sabe se a economia feita na eliminação dos atendentes continua a se traduzir em menores preços, porque não há como comparar o preço das bombas self-service com o preço das bombas "full service", que não existem mais...

E os bancos? Antes a gente era atendido por caixas-gente. Depois passamos a transacionar com o banco com caixas-gente através do telefone (Itau Bankline, por exemplo). Hoje interagimos com caixas eletrônicos, sem que haja gente do outro lado. Ou interagimos com o banco pela Internet -- também sem que haja gente do outro lado. Os caixas-gente foram demitidos. O lucro do banco aumentou -- mas o preço de nossas interações com o banco continua, para nós, o mesmo -- ou maior. Os bancos hoje prestam muito mais serviços, com muito menos gente... Porque grande parte do trabalho foi "externalizado" para os clientes, que não são pagos para trabalhar para o banco... 

Antes, quando a gente enviava um pacote pelo Federal Express, tinha de ligar pra eles, dar o número do protocolo para uma atendente, esta verificava no computador deles e nos dava uma previsão de entrega. Hoje não há mais a atendente: a gente mesmo entra na Internet, digita o número do protocolo, e verifica exatamente onde está o pacote... Mais "externalização" do trabalho para os clientes, trabalho que é feito sem remuneração.

Estive num restaurante estilo "fast food" em Chicago -- especializado em sanduíches -- em que a gente chega, interage com um terminal, escolhe o que quer, define os ingredientes do sanduíche, o tipo de pão, os molhos, se quer bebida, qual, de que tamanho, etc. -- e recebe um protocolo. Cinco ou dez minutos depois é chamado: o sanduíche está pronto. Não há mais garçon. Há quem faz o sanduíche e quem recebe o pagamento -- este podendo facilmente ser eliminado se o sistema exigir que você pré-pague o que comprou com um cartão de crédito. "Externalização".

E assim vai.

Alvin Toffler estima que o PNB mundial seria dobrado se fossem contabilizados esses trabalhos externalizados, mais aqueles trabalhos que fazemos em casa, ao educar nossos filhos, ao cuidar da casa, ao cuidar dos doentes da família, ao ajudar os vizinhos, ao cuidar de nosso jardim, ao lavar e até mesmo consertar nosso carro, etc.

Voltarei ao tema.

Em Chicago, 7 de maio de 2006

Lost in Translation

Acho muito interessante o filme "Lost in Translation" de Sofia Coppola (ela dirigiu e escreveu o roteiro), com Bill Murray e Scarlett Johansson. Acho que o nome do filme em Português é "Encontros e Desencontros" -- que não indica que o filme em gira em torno de problemas lingüísticos que, por sua vez, se traduzem em problemas culturais.

(Quem não assistiu ao filme pode ver um resumo em http://imdb.com e um trailler em http://mymovies.net)

O filme descreve com muita propriedade as dificuldades que ocidentais têm para entender orientais -- especialmente para entender orientais em contextos envolvendo comunicação lingüística.

Nos últimos dois anos vim várias vezes à Asia: Taiwan, três vezes, Hong Kong, duas vezes, Macau, uma vez, Coréia do Sul, uma vez, Cingapura, uma vez -- quase sempre passando por Tóquio, cidade cujo aeroporto (Narita) possui todo um setor da United -- onde apenas ela controla cerca de 30 portões de embarque.

A maior parte do tempo, quando estou aqui, e quero sair, alguém me acompanha: ou alguém local, que fala a língua local (chinês [mandarin], chinês [cantonês], coreano), ou, então, um grupo de estrangeiros que, embora não falando a língua local, compartilham a ignorância da língua e, assim, socializam qualquer passo em falso...

Ontem, porém, Sábado, dia 6, saí sozinho aqui em Taipei. Não é uma experiência fácil. Estou no Grand Hotel, uma construção de estilo chinês, enorme e magnífica, que fica no alto de um morro, cercada por um bosque que, por sua vez, é cercado por pistas de alta velocidade. Sair do hotel andando, como eu normalmente gosto, é complicado. Logo, saí de taxi.

Problema número um: quase nenhum motorista de taxi aqui em Taiwan fala Inglês (ou qualquer outra língua além do chinês de pronúncia cantonesa]). Exigência número um, portanto: sair do hotel munido de descrições em chinês acerca dos locais aos quais você deseja ir, bem como com um cartão de visitas do hotel, que tenha, em chinês, o nome, o endereço e o telefone do hotel. Na saída do hotel os bell-boys lêem o seu papelzinho, falam com o motorista, anotam em um outro papel o número e a placa do taxi, bem como o nome do motorista e lhe dão. Perguntei a eles para que servia aquilo. Disseram, sorrindo como sempre: para sua segurança. Fiquei na mesma. Na mesma, bem, não: fiquei mais preocupado do que estava. Mas não deixei isso transparecer. Procurei demonstrar segurança. Ao chegar ao destino, o motorista apenas apontou para o taxímetro (na ida foi 125 Taiwan dollars, na volta 140, não sei exatamente por que, pois saí de volta exatamente do mesmo local a que cheguei, apesar de ter rodado pelo centro da cidade). Você paga e ele lha dá o troco. Como você não conhece as notas nem as moedas, coloca tudo no bolso, porque conferir levaria tempo demais. 

Problema número dois: muito poucos vendendores nas lojas falam Inglês -- e aqueles que falam em geral falam o mínimo indispensável para vender alguma coisa, e, em geral, com uma pronúncia que é muito difícil entender. Eu fui a um local conhecido aqui em Taipei, onde há "trocentas" lojinhas pequenas de eletrônica no espaço de mais ou menos um quarteirão, dispostas quase como estandes de 3x3 ou 2x3 ou até 1x3 numa exposição (como uma feira de informática). Têm de tudo. Mas muitas estavam fechadas. Quando encontrava um vendedor que parecia falar melhor o Inglês, perguntava: "Why so many stores closed?" -- Por que tantas lojas fechadas. Recebia em resposta um daqueles olhares indicativos de que a pessoa não entendeu absolutamente nada. Fiquei sem saber se era porque era sábado, se era porque era antes do meio-dia, ou se havia alguma outra razão.

Problema número três: a Joyce Weng, que é a diretora da empresa que organizou a logística do Congresso do qual vim participar, me disse: não pague o que eles lhe pedirem, barganhe. Eu lhe disse: barganhar como??? Ela me disse: quando você achar algo que lhe interessa, aponte para a coisa e pergunte o preço -- dizendo "How much?" (isso eles entendem) ou raspando o polegar no indicador ou no pai-de-todos, para indicar dinheiro (que parece ser um gesto com significado universal). Eles vão lhe responder pegando uma calculadora grande e digitando nela o preço. Você pega a calculadora das mãos deles, calcula, digamos, 80% do preço, e mostra pra eles. E por aí vai. Fiquei preocupado. Em geral não sou bom negociador -- e barganhar desse jeito parece estar além da minha capacidade. E se eu não me lembrasse de como se calcula porcentagens na calculadora??? 

Mas encurtemos a história.

Na primeira lojinha que encontrei, logo na entrada no complexo (que tem cerca de 15 enormes barracões, todos com ar condicionado, banheiro, caixas eletrônicos, etc., direitinho), encontrei algo que estava procurando: discos rígidos de 2,5 polegadas. Eles em geral são vendidos pelados, sem o estojo. Você tem de comprar o disco pelado, o estojo do disco, pedir para eles instalarem o disco no estojo, formatar o disco e lhe mostrar que o disco está funcionando e tem a capacidade anunciada. Além disso, se você é como eu, você vai querer comprar uma capinha de couro (ainda que seja couro "genérico") para guardar o seu minúsculo disco rígido (menor do que um Palm). Você tem de comprá-la em separado. (Sei disso por que anteriormente já comprei três desses, dois de 80 GB e um de 120 GB -- mas comprei-os quando estava acompanhado de gente que falava a língua e barganhava por mim...).

Na lojinha em questão um jovem gordo e careca falava ao telefone exatamente no balcão onde estavam os discos. Tentei chamar a atenção de um outro vendedor, que estava sem fazer nada, mas ele fez sinal de não com a mão, apontando para o gorducho. Enquanto este terminava a ligação, olhei as caixinhas na vitrina. Havia caixinha de disco de 40 GB, de 60 GB e de 80 GB. Eu queria, naturalmente, o de 120 GB. Apontei para as  caixinhas e perguntei: One hundred and twenty gig? Ele me respondeu, Ya. Eu perguntei: How much? O desgraçado não seguiu o script. Ele pegou a calculadora, ligou, e a virou para mim, sem digitar nada. Olhei para ele assim com a minha melhor cara de perdidão. Não adiantou. Fiz um gesto de quem não havia entendido. Ele me respondeu: Make offer -- faça uma oferta. Já disse que não sou bom em negociação. Mas quando alguém me dá um preço, em geral sou capaz de oferecer algo assim como cinco por cento abaixo. Mas eu começar dando preço à mercadoria do outro é algo que definitivamente não gosto de fazer. Fiz um sinal de esqueça e fui saindo... O gordão estava rindo, condescendentemente -- e levemente sacuindo sua cabeça negativamente. Parecia estar dizendo que ocidentais não sabem negociar. É verdade. Orientais e árabes são muito melhor nisso do que a gente.

Fiquei umas quatro horas por lá. Desenvolvi uma dorzinha de cabeça chata. E não comprei quase nada. Razão: basicamente, insegurança -- tanto para a compra parca como para a dorzinha de cabeça. Quando o preço era mais ou menos bom, eu perguntava: Brand? - Marca? E a marca era uma marca taiwanesa, totalmente desconhecida. Quando a marca era Sony, Fujitsu, Samsung, o preço me parecia alto demais -- o que me obrigaria a barganhar bastante, coisa que, convenhamos, eu não estava muito disposto a fazer. O pior é você fazer uma pergunta simples e eles ficarem dois minutos conversando em chinês entre eles antes de lhe dar uma resposta -- ou, ainda pior, cair na risada sem que você saiba por quê...

O filme de Sofia Coppola lida com essas realidades. Vivenciar meio-dia sozinho num mercado de tecnologia em Taiwan me ajudou a elevar mais a minha avaliação do filme. Não o percam, caso ainda não o tenham visto. Se não gostarem da história, os homens, pelo menos, vão adorar Scarlett Johansson: a menina de 20 anos, por aí, que todo cinqüentão, como Bill Murray, pediu a Deus -- e o idiota do marido dela virtualmente a jogou nos braços dele. Mas já conto o final: exceto por um beijo, o caso incipiente dos dois não foi a lugar nenhum: terminou quando ele voltou de Tóquio para os Estados Unidos. Comme il faudrait, peut-être.

Em Taipei, 7 de maio de 2006


04) 2006/05/06 - 04:22 PM

Gestão do conhecimento: o conceito

Vou me arriscar a discutir a questão da conceituação da gestão do conhecimento sem me referir à volumosa literatura que existe sobre esse tema. Vou me valer apenas, de um lado, de minha experiência como filósofo, por muitos anos envolvido com a epistemologia (teoria do conhecimento), e como educador, também por muitos anos envolvido com a questão de como é que as pessoas, que nascem ignorantes e incompetentes, conseguem vir a conhecer, isto é, a se designorantizar, e a se tornar competentes, isto é, a se desincompetentizar, e, de outro lado, de meu conhecimento da literatura filosófica sobre o conhecimento. Também fui, durante vários anos, professor de Gerenciamento de Sistemas de Informação. Colocando tudo isso num liqüidificador, vamos ver no que dá...

Há momentos em que me pergunto se a gestão do conhecimento é algo mais do que o antigo gerenciamento da informação - e se é, no que consiste esse mais?

A impressão que tenho é que a gestão do conhecimento é, sem dúvida, algo mais do que o gerenciamento da informação -- e que o mais, no caso, é o gerenciamento de competências. Assim teríamos: gerenciamento da informação + gerenciamento de competências = gestão do conhecimento.

Obviamente haverá quem estranhe essa forma de colocar as coisas. Mas vou tentar justificá-la.

Certamente já houve quem tenha dito que a gestão do conhecimento abrange TANTO o conhecimento (que eu prefiro chamar de informação) que está registrado, digamos, no que Karl Popper chama de "Mundo 3", isto é, em mecanismos diversos de registro e armazenamento da informação, como livros, revistas, jornais, discos magnéticos e ópticos, fitas idem, etc. (o "etc" englobando até mesmo fotografias, quadros, reproduções de imagens, discos e fitas com música e vídeo, paredes de caverna, etc. -- isto é, englobando até mesmo a informação audio-visual e não apenas textual), COMO o conhecimento que está armazenado na cabeça das pessoas (naquele que Karl Popper chama de "Mundo 2", o mundo mental; o que ele chama de Mundo 1 é o mundo que resta quando se atribuem a outros mundos as realidades mentais e as informações, e que inclui os mecanismos físicos em que armazenamos as informações).

Mas aqui surge o seguinte problema, que tem várias facetas.

O conhecimento que está armazenado na cabeça das pessoas engloba uma boa parte da informação que também está registrada fora. Digamos que vou escrever um artigo. Penso e decido o que vou dizer. Até que eu coloque o artigo em disco ou papel, ele está só na minha cabeça; depois passa a estar na minha cabeça e no papel ou no disco. Se um dia ou me esquecer totalmente do conteúdo do artigo que escrevi, ou, então, se eu morrer, o artigo continuará a existir em papel ou em disco.

Seria o conhecimento que está em nossa cabeça algo mais do que um conjunto de informações que podem ser, digamos, externalizadas e registradas em algum meio de armazenamento de informações? 

Tradicionalmente, na Epistemologia (Teoria do Conhecimento), se argumentou que conhecimento é informação -- mas informação de certo tipo. Na versão mais famosa dessa teoria tradicional, as informações que merecem ser chamadas de conhecimento são aquelas que são verdadeiras, para as quais temos evidência, e nas quais acreditamos. Em suma: conhecimento seria crença verdadeira e evidenciada.

Não vou entrar aqui na discussão dessa proposta de conceituação de conhecimento, que é bastante falha. Basta dizer que pouca gente a aceita, hoje. Popper, talvez, tenha sido o seu coveiro.

Muitas outras propostas têm surgido para substituir essa visão tradicional, preservando a idéia de que conhecimento é informação, mas procurando mostrar que apenas um certo tipo de informação faz jus ao rótulo de conhecimento: por exemplo, conhecimento seria a informação integrada, contextualizada e interpretada, por exemplo. E assim vai.

Numa linha diferente, têm havido aqueles que, sob inspiração de Piaget, têm afirmado que conhecimento não é informação (nem mesmo de um tipo especial), mas que é o nome que damos aos nossos modelos e esquemas ("schemata") mentais, que, em última instância, são aquilo que nos permite lidar com grandes quantidades de informação e fazer sentido delas.

Embora atraente, há algumas dificuldades nessa proposta.

Em primeiro lugar, boa parte de nossos modelos e esquemas mentais normalmente não são conscientes. Se fizermos um esforço de foco e auto-análise, poderemos até adquirir consciência de alguns deles, se bem que dificilmente em toda a sua complexidade. Em segundo lugar, se isso é verdade, seria possível descrever, em parte, esses modelos e esquemas, mas seria muito difícil transmiti-los ou transferi-los a terceiros: cada um, em última instância, teria de desenvolver os seus. Em terceiro lugar, se isso é verdade, é difícil imaginar o que seria a gestão, por terceiros, desse conhecimento que está na cabeça dos outros. Na verdade, é difícil até mesmo imaginar o que seria a gestão dos modelos e esquemas mentais que estão na nossa própria cabeça, em parte porque a tomada de consciência deles, ainda que parcial, exige competências de auto-percepção (auto-conhecimento?), análise e descrição de sistemas complexos que a maior parte dos mortais não desenvolve.

Quaisquer que sejam os modelos e esquemas que desenvolvamos para lidar com a informação e fazer sentido dela, parece inegável que esses modelos e esquemas, mais as informações que possuímos em nossa cabeça, se traduzem nas competências e habilidades que desenvolvemos. Sem, necessariamente, nos comprometer com uma visão behaviorística da mente, mas reconhecemento que num contexto instituticional é o comportamento que mais importa, poderíamos, então, concluir que a chamada gestão do conhecimento é o gerenciamento da informação registrada em diversos meios de armazenamento dentro de uma instituição mais o gerenciamento das competências daqueles que ali militam. Assim evitaríamos as complicações envolvidas em falar no conhecimento que está "