Março de 2006


Os artigos estão em ordem cronológica, com os mais recentes em cima.
[7 artigos publicados neste mês]


AIDS, o Grande Inquisidor e as certezas da classe médica

[Este artigo foi escrito em 1989. Até hoje não vi resposta convincente às questões que ele levanta]

É como leigo no assunto que venho tornar pública minha surpresa diante da absoluta certeza demonstrada por uma parte da classe médica de que o vírus HIV é de fato o causador da AIDS. Essa certeza parece ter se acentuado a partir do momento em que um professor alemão, radicado na Califórnia, resolveu questionar a ortodoxia dominante. "O HIV causa AIDS, sim!", é, por exemplo, o título de um dogmatizante artigo do médico Drauzio Varella, publicado em O Estado de São Paulo de 27/04/89.

A reação à entrevista dada ao Fantástico pelo professor Peter Duesberg não se dignou sequer a levar a sério as idéias por ele externadas: partiu diretamente para argumentos "ad hominem". Um dos médicos brasileiros que "repercutiu" (se me permitem o jargão jornalístico) a entrevista chegou quase a taxar o professor californiano de um mero "Zé Ninguém" em busca de notoriedade.

O Dr. Varella ataca somente o homem, deixando incólume a tese que este defendeu. Afirma, por exemplo, que o professor Peter Duesberg não é médico, nunca colocou mão em doente, nunca estudou o HIV em laboratório, nunca publicou no campo da AIDS. Além do mais "é nitidamente fascinado pelas câmeras".

O Dr. Varella é forçado a reconhecer que o professor Duesberg é um Ph.D. e que andou fazendo umas pesquisas importantes na área dos retro vírus (ao qual pertence o chamado vírus da AIDS), mas sua descoberta mais importante é descrita como nada mais do que o desvendamento de "certos mistérios que envolvem a malignização de células da galinha". C'est tout. Fini.

Contra o professor Duesberg o Dr. Varella afirma, ainda, que suas teses são desmobilizadoras, pois poderão levar muitas pessoas a não tomar tantos cuidados em relação à AIDS, e que poderão dar a impressão de que "nem os próprios cientistas sabem se a AIDS é transmitida por vírus ou não". Contra essa impressão ele decreta: "Não existe polêmica no mundo científico: é o HIV que provoca AIDS, e ponto final". O professor Duesberg acaba de ser colocado fora do mundo científico.

Eu, como leigo no assunto, mas razoavelmente interessado em encontrar sentido naquilo que os especialistas, reais ou auto-proclamados, afirmam, permito-me algumas considerações semi-epistêmicas sobre o assunto.

1) Parece-me um absurdo, em primeiro lugar, a utilização descarada da argumentação "ad hominem". Tudo bem, o professor Duesberg não é médico. Mas e daí? Vamos analisar o que ele disse, não quem ele é. Afinal de contas, de vez em quando um não-médico também diz alguma coisa que faz sentido e que pode até ser verdadeira. Não me consta que os médicos detenham o monopólio do saber, nem mesmo na área restrita da medicina. Muito menos em áreas envolvendo pesquisas de ponta da biologia. O fato de não ter colocado as mãos em doentes de AIDS não desqualifica o professor Duesberg, a priori, para fazer afirmações sobre vírus, em geral, e o dito da AIDS em particular. E se o fato de supostamente "ser fascinado pelas câmeras" tornasse suas afirmações automaticamente inverídicas, não sei bem o que restaria de verdade dentro da comunidade médica, pois alguns dos defensores da ortodoxia vigente na área da AIDS no Brasil me parecem vítimas pelo menos igualmente graves da mesma fascinação, para não mencionar o encanto pelas páginas dos jornais.

2) Parece-me, porém, ainda mais absurdo criticar o professor Duesberg com base na alegação de que sua tese desmobiliza todo o esforço hoje sendo feito no sentido de reduzir a infecção pelo HIV. Ora, é isso, porventura, argumento que se apresente? Ainda que o Dr. Duesberg estivesse redondamente errado, a forma de combatê-lo seria mostrar que sua tese é falsa, não apelar para o seu potencial desmobilizador. Afinal de contas, o próprio professor Duesberg deixou claro, no Fantástico, para quem quis ouvir, que, mesmo que ele esteja certo em relação ao HIV, a mobilização é importante, porque a síndrome que se chama de AIDS está estreitamente relacionada a hábitos ou estilos comportamentais.

Mas vou além: ainda que o professor Duesberg estivesse propondo a tese de que a forma de contrair AIDS não tem nada que ver com o HIV nem com hábitos ou estilos comportamentais, e que, portanto, toda a mobilização atual é desnecessária, ainda assim, repito, a afirmação de que sua tese é desmobilizadora em nada a invalida.

3) O Dr. Varella afirma que não teria havido "nada de mais" se o professor Duesberg tivesse restringido suas opiniões ao círculo "de sofisticada discussão acadêmica" e tivesse se limitado à "elegância do estilo científico". O problema foi que ele levou suas idéias "aos meios de comunicação de massa".

Essa técnica de argumentação me faz lembrar "O Grande Inquisidor", do romance Os Irmãos Karamazov, de Dostoiewsky. Por detrás do dito, o não-dito correria mais ou menos assim: "Nós, pesquisadores e médicos, sabemos, aqui entre nós, que o professor pode ter razão. Mas não é bom divulgar isso, porque vai fazer com que os costumes do povão voltem a se deteriorar. Toda a 'indústria da AIDS' pode ser desmontada se o povão acreditar no que diz o professor. As empresas farmacêuticas não vão fabricar mais tantas camisinhas, nem tantos 'kits' de testes anti-HIV, Elisa, Western Blot, etc. E nós, os protetores dos enfermos aidéticos, vamos perder nosso acesso à tribuna da imprensa, para não falar nas consultorias e nas verbas para pesquisa, etc.". "O Grande Inquisidor" defendia postura idêntica: é importante fazer o povão acreditar em "mentiras pias", que nos permitem controlá-lo melhor e tê-lo à nossa mercê.

Foi com base em posturas desse tipo que muito incrédulo mandou herejes para as fogueiras na Inquisição -- não porque os hereges dissessem algo de que discordassem, mas porque os hereges o diziam abertamente, em praça pública (diante das câmeras de televisão, dir-se-ia hoje).

4) Em resumo, o que é que disse o professor Duesberg? Ele disse, fundamentalmente, o seguinte:

A) Não se tem conhecimento de nenhum caso de infecção virótica que se manifeste sete ou oito anos depois de a pessoa haver contraído o vírus e após ter desenvolvido os anti-corpos a esse vírus. As infecções viróticas geralmente se manifestam logo após o vírus ter sido contraído.

B) As pessoas que contraem o HIV, segundo a evidência disponível, desenvolvem anti-corpos (na verdade os testes verificam a presença não do vírus em si, mas de anti-corpos a ele), e ficam sem manifestação alguma da doença por vários anos -- sete a oito, em média. Pode até dar-se o caso de algumas pessoas terem contraído o vírus e nunca virem a ter manifestação alguma da doença.

C) Esse fato, em si, é indicativo de que a causa da doença não é a presença do vírus no organismo. Este já foi tornado ineficaz, como demonstra a presença dos anti-corpos. Daqui a vinte anos, afirmou o professor Duesberg, a comunidade científica vai rir de quem um dia afirmou que um vírus contraído oito anos antes, e cuja ação já foi tornada ineficaz, pudesse ainda causar uma doença e, finalmente, a morte de uma pessoa.

D) O professor Duesberg afirmou que o que é hoje chamado de AIDS é uma síndrome de doenças, que possuem manifestações diferenciadas e provavelmente etiologias diferentes, dependendo dos grupos de comportamento de risco das pessoas que as contraem: homossexuais, viciados em drogas, etc. Mais perigoso para a saúde (inclusive imunológica) da pessoa é sua promiscuidade sexual, o conteúdo de suas seringas, do que ser homossexual ou usar agulha contaminada.

E) Afirmou, por fim, o professor Duesberg que remédios, como o AZT, que estão sendo utilizados contra a AIDS, em função da visão dominante quanto à sua etiologia, estão causando mais mal do que bem e que na verdade podem estar realmente matando os pacientes.

5) São essas afirmações que eu, como leigo neste assunto, gostaria de ver discutidas pela classe médica. E gostaria de ver argumentos reais, e não meros "argumentos" de autoridade. Para mim, dizer que fulano de tal, prêmio Nobel, ou diretor de um famoso hospital, não concorda com o professor Duesberg, não significa nada: quero ver alguém refutando as afirmações do professor. Seria pedir demais à classe médica?

E não adianta simplesmente reiterar a verdade recebida, dizendo, "O HIV causa AIDS, sim!", por mais pontos de exclamação que possam ser colocados após o "sim", nem dizer, como disse um outro entrevistado do Fantástico, que é um pesquisador contra 50.000. O problema não é de aritmética nem se resolve no voto.

Alguém se habilita a realmente responder ao professor de Berkeley?

Em Salto, 29 de março de 2006 (artigo escrito em 1989)

Educação, felicidade e riqueza

Em 1976, no meu terceiro ano como Professor de Filosofia da Educação na UNICAMP, quando muitos nesta lista não haviam nem nascido, conheci Morris Weinberger, um professor da Bowling Green State University, em Bowling Green, Ohio (onde posteriormente estive como professor visitante), e peguei dele um interessante questionário sobre os objetivos da escola. O questionário listava vinte possíveis objetivos para a educação escolar (não para a educação em geral, mas, sim, para a educação que se proporciona na escola).

O questionário tinha itens como “Ajudar os alunos a dominar bem os conteúdos constantes das matérias do currículo”, “Ajudar os alunos a apreciar e valorizar as diferenças culturais”, “Ajudar os alunos a se envolver na luta por uma sociedade melhor e mais justa”, “Ajudar os alunos a adquirir hábitos constantes de aprendizagem”, “Ajudar os alunos a se preparar para o exercício de uma profissão”, etc. No total, vinte possíveis objetivos para a escola.

A tarefa dada aos alunos seria discutir, em pequenos grupos, aqueles objetivos e, depois, cada um por si, hierarquiza-los em ordem de preferência. O objetivo colocado em primeiro lugar seria aquele considerado pela pessoa como o mais importante para escola – e assim por diante. Os objetivos colocados nos últimos lugares seriam aqueles que a pessoa nem achava que devessem ser objetivos da escola. (Embora pudesse considera-los objetivos dignos da educação que tem lugar no lar, na comunidade, no trabalho, etc.).

(A segunda fase do exercício era pedir aos alunos para preencher mais uma vez o questionário agora hierarquizando os objetivos segundo, na opinião deles, as preferências dos seus professores... Depois, na terceira, pedir aos professores que preenchessem o questionário, segundo suas próprias preferências. Finalmente, na quarta, pedir aos professores que preenchessem o questionário segundo, na opinião deles, as preferências dos alunos. Depois se comparava tudo. Dava uma discussão interessante. Mas não é bem isso que eu quero focar aqui). 

Durante quase trinta anos apliquei esse questionário aos meus alunos. Consistentemente os objetivos que ficaram nos dois primeiros lugares na preferência dos alunos foram “Ajudar os alunos a adquirir hábitos constantes de aprendizagem” e “Ajudar os alunos a se envolver na luta por uma sociedade melhor e mais justa”. Esses dois sempre se alternaram nos dois primeiros lugares ao longo dos anos.

Nenhuma surpresa aí.

O que me causou surpresa foram os dois objetivos que consistentemente ficaram nos dois últimos lugares na preferência dos alunos: “Ajudar os alunos a melhorar sua condição sócio-econômica e, se possível, alcançar sucesso financeiro” e “Ajudar os alunos a alcançar felicidade pessoal”. Novamente aqui, esses dois objetivos se alternaram nos dois últimos lugares, ao longo dos anos.

Isso, para mim, sempre foi fonte de grande perplexidade.

Explico por quê.

1) A educação deve promover o desenvolvimento humano. Se não nos desenvolvemos (a partir dos seres incompetentes e dependentes que somos ao nascer), morremos (a menos que alguém constantemente tome conta de nós, em cujo caso nos tornamos piores do que incompetentes e dependentes temporários: nos tornamos parasitas permanentes).

2) Isso significa que a educação deve nos preparar para a vida. A vida do ser humano, entretanto, diferentemente da vida de uma tartaruga marinha, é relativamente aberta: podemos escolher, dentro de amplos limites, o que vamos ser na vida. Em geral, essa escolha é ditada por nossos valores (aquelas coisas que nos dispomos a lutar para alcançar ou, tendo alcançado, preservar). Outra forma de dizer isso é afirmando que o que fazemos de nossa vida é ditado por nossos sonhos (nossos projetos de vida). Dinheiro (como já dizia Aristóteles) é meio: não tem valor em si, seu valor decorrendo daquilo que ele nos permite fazer (e que, sem dinheiro, não conseguiríamos). Embora se afirme que dinheiro não traz felicidade, isso só é verdadeiro no sentido de que a posse do dinheiro, em e por si só, não faz ninguém feliz. Mas é inegável que o dinheiro torna possível viabilizar muitos de nossos sonhos e torna possível, de muitas maneiras, a transformação de nossos sonhos (projetos de vida) em realidade.

3) A felicidade, a meu ver, tem muito que ver com tudo isso. Feliz, ou realizada, é a pessoa que é capaz de transformar seus sonhos (projetos de vida) em realidade. Embora isso muitas vezes seja um horizonte distante, em geral somos felizes quando conseguimos fazer progresso nessa direção, quando vemos que nossos esforços para transformar nossos sonhos (projetos de vida) em realidade estão surtindo resultados e estamos caminhando na direção daquilo que vai nos tornar felizes, ou realizados.

4) Se essa linha de raciocínio faz sentido, ajudar as pessoas a alcançar sucesso financeiro e ajudar as pessoas a alcançar felicidade pessoal deveriam ser os objetivos centrais da educação. Por que meus alunos relegaram esses dois objetivos para os últimos lugares, removendo-os do escopo da escola, é, para mim, difícil de entender.

5) Nas discussões que mantinha com eles ficava claro que a principal razão que eles tinham para remover esses objetivos educacionais do âmbito da escola era que eles imaginavam que a escola deveria se limitar a tratar de questões cognitivas ou intelectuais, deixando questões como sucesso financeiro e felicidade pessoal para o âmbito da educação que tem lugar no lar e na comunidade. Assim, defendiam-se dizendo que os objetivos poderiam até ser importantes para a educação, mas não deveriam ser incluídos no âmbito da escola: esta deveria só tratar do desenvolvimento de competências cognitivas.

6) Se, entretanto, levamos a noção dos 4 Pilares a sério, como definindo, em linhas gerais, um programa não só para a educação, mas para a escola, então teremos de virar o currículo verdadeiramente de cabeça para baixo. Não se trata simplesmente de a escola deixar de ser uma transmissora de informações e conhecimentos. Ela deve passar a se preocupar com o desenvolvimento de competências, por parte dos alunos – e não só de competências ditas cognitivas [aprender a conhecer, aprender a aprender], mas também de competências no plano dos relacionamentos, até mesmo no âmbito do casamento ou das uniões estáveis [aprender a conviver], de competências no plano dos empreendimentos [aprender a fazer, onde está a competência de alcançar sucesso financeiro], e, finalmente, de competências no plano pessoal, que inclui a imaginação, as emoções, a sensibilidade [aprender a ser].

7) Falando do aprender a ser, o que seria de nós sem a imaginação da leitura (Rebecca, Helena e Gabriela são mulheres mais reais para muitos de nós do que muitas de carne e osso), as emoções da música (Una Furtiva Lacrima, com Nana Mouskouri), as sensações geradas pela contemplação do belo (um pôr-do-sol, um beija-flor beijando a flor, ou então as belezas criadas pelo homem, a Mona Lisa no Louvre, o pensador de Rodin, mais ao lado, no Museu Rodin, a Catedral de Sacré-Coeur um pouco mais acima, em Montmartre...]. Nossa vida seria muito mais pobre se não desenvolvêssemos competências nessas áreas. [Mudem os exemplos para outros que cada um acha importante].

8) Edgar Morin disse, num tom poético, que a educação (inclusive a escolar) deve nos preparar para falar em prosa e em poesia... O falar em prosa trata dos meios, daquilo que nos permite continuar vivos, mas o falar em poesia trata dos fins, daquilo que nos permite querer continuar vivos. O primeiro, nos permite viver, mas o segundo nos dá a razão para querer viver...

9) Rubem Alves também falou, em várias de suas crônicas, que a educação (inclusive a escolar) deve nos permitir criar uma caixinha de ferramentas (tool box) e uma caixinha de brinquedos (toy box). Semelhantemente à propositura de Morin, a primeira nos permite continuar vivos (e, em grande media, nos traz dinheiro), mas é a segunda que nos dá prazer (embora muita gente aprenda a ganhar dinheiro com as coisas que lhe dão prazer).

10) Deve a escola deixar ao desabrigo o desenvolvimento dessas competências-brinquedo e se concentrar em desenvolver nossas competências-ferramenta? Deve a escola nos ajudar a aprender a falar apenas em prosa, não em poesia?

É isso – por enquanto. Se eu fosse preencher hoje o questionário que costumava dar para meus alunos (minhas alunas), colocaria nos dois primeiros lugares exatamente os dois objetivos que eles consistentemente colocaram em último...

Em Washington, 14 de março de 2006


05) 2006/03/14 - 08:47 AM

De cães e gatos

A presente crônica é aproveitada de uma mensagem que escrevi em uma das listas de discussão que coordeno. Na mensagem, falei dos vários cães que tenho em meu sítio (“O Canto da Coruja”) aqui em Salto. Meu dileto amigo, Axel de Ferran, francês de nascimento, tio do Gil de Ferran (chefe do Rubinho Barichello) e gatófilo juramentado, protestou que eu nada houvesse dito acerca dos gatos do sítio. A mensagem é uma resposta ao Axel.  

Não tenho gatos, Axel. Na verdade, não gosto de gatos - em parte, exatamente pela índole deles, que você sublinha tão bem: eles gostam de disfarçar, enganar, fazer charme... Enfim, são falsos. [Mulheres: notem, por favor, que NÃO estou concordando com o Axel que essas características os gatos compartilham com a sub-espécie feminina da espécie humana].

Como todo mundo nesta lista [e que lê este blog] sabe, defendo a tese de que nós, humanos, devemos ser egoístas, cuidar, acima de tudo, de nossa felicidade. Mas não defendo a tese de que animais de estimação devam também ser egoístas. Eles existem para causar prazer aos seus donos – o que vale dizer que existem exclusivamente para ser altruístas (o seu “alter” sendo nós, seus donos). Sua felicidade, portanto, é a nossa. Eles estão felizes quando nós estamos felizes. Ponto final. Na verdade, diria que o altruísmo é atitude que cai como uma luva em animais de estimação - e que não serve, de maneira alguma, para nós humanos (a menos que pretendamos nos rebaixar à condição de animais de estimação dos outros, que vivem, não em função de sua própria felicidade, mas do bem estar dos outros). 

Gatos são egoístas. Fazem de conta que são humanos. Eles não vêm lhe fazer festa quando você está querendo festa. Eles só chegam perto de você quando ELES querem um afago. Tente afagar um gato quando ele não quer se afagado. Ele arranha você, mesmo que você seja seu dono. E se você, idiotamente, cai na deles e os afaga – mas os afaga mais do que eles querem, eles se levantam e vão embora. Sem dar satisfação. Sem sequer dizer "merci".

Se você chegar em casa numa noite fria e chuvosa, não espere que os seus gatos estejam lá no portão / na porteira, para lhe dar boas-vindas. Os gatos estarão dormindo, num bem-bom, quentinhos... Se bobear, na sua cama e com a sua mulher... Os cachorros, não... Saem de suas casinhas e vêm correndo lhe dar boas-vindas... Se um deles tentar pular em você com as patas meio sujinhas, e você der um grito horrorizado e grosseiro de "Passa!!!", ele fica meio surpreso, pensando, com seus botões: "O que será que houve com ele? Eu saí lá da minha casinha para vir festejá-lo, nesse frio e nessa chuva, e ele grita comigo, como se eu fosse um leproso?... Acho que ele teve algum problema na festa a que foi! Só pode ser". E tenta de novo... Outro "Passa!!!" Pensa que ele desiste? Não! Fica lá, com o rabinho entre as pernas, murcho - mas a carinha dele diz que, assim que você o chamar, ele vem correndo para se prostrar diante de seu amo e senhor. Afinal de contas, ele sabe que existe para faze-lo feliz. Ele sabe perdoar melhor do que um cristão -- ele perdoa os gestos impensados daqueles que ele considera amigos (dos quais o mais importante É VOCÊ) - mas nunca perdoa os inimigos. Inimigos são inimigos "pour toujours", "for ever".  

E se algum ladrão tentar invadir a sua casa? Ao primeiro sinal de problemas, os gatos todos desaparecem. Somem sem deixar traço. Só quando o problema acaba é que reaparecem com aquele ar de quem não sabe o que houve... "Aconteceu algum problema? Tá todo mundo com uma cara meio estressada!!!", dirá o gato-chefe-da-casa, tentando fazer uma graça para relaxar o ambiente. O cachorro, se o ladrão tenta entrar, late, rosna, mostra os dentes, corre pra lá e pra cá, pula na cerca. Se o ladrão consegue passar do portão, ele o ataca fisicamente. Se o ladrão dá um tiro de revólver na direção de alguém da família, o cachorro é capaz de pular na frente para receber a bala no lugar do familiar.

Cachorro é altruísmo puro (como é absolutamente certo quando se trata de cachorros). Diria até mesmo que o cachorro é o mais cristão dos animais: o perfeito animal sacrificial (deixa os carneiros e as ovelhas, tradicionais animais de sacrifício, quilômetros para trás, pois o cachorro se oferece voluntariamente ao sacrifício – os outros animais apenas se prestam ao sacrifício).   

Por essas e outras, Axel, se aparecer algum gato por aqui, boto imediatamente carvão na churrasqueira. E abro uma garrafa de vinho francês.

[Aqui entre nós e tendo em vista o fato de que você é francês de nascimento: para acompanhar carne de gato, o vinho seria branco ou tinto?]  

[ET: Dedico essa crônica à minha cachorrinha preferida, a Jul – amor recente, mas fulminante, como é o caso de quase todos amores à primeira vista. Felizmente, estou convicto de que o sentimento é “reciprocado”.]

Em Washington, 14 de março de 2006


 

Prefácio a um livro de Arnaldo Niskier

Arnaldo Niskier me honra ao pedir-me que escreva o Prefácio desta segunda edição do seu livro - e o faz duplamente. Primeiro, porque é um livro seu. Segundo, porque o Prefácio da primeira edição foi escrito for Tarcísio Meirelles Padilha. Os dois, membros da Academia Brasileira de Letras. Os dois, grandes filósofos da educação brasileiros (sic; deliberadamente não quis dizer "filósofos da educação brasileira", por razões que ficarão aparentes adiante).

John Dewey uma vez disse que toda filosofia é, em última instância, filosofia da educação. Tendo a concordar com essa afirmação - e acredito que Arnaldo Niskier concorde também. Seu livro não é uma mera coletânea de pensamentos pios sobre a educação, nem, tampouco, uma proposta ideologizada de ações práticas que poderiam orientar as autoridades constituídas. Seu livro é uma tentativa séria de lidar com os problemas fundamentais que demarcam a questão educacional - hoje e sempre. E esses problemas são, basicamente, filosóficos - mais especificamente, epistemológicos. Arnaldo Niskier mostra perfeita consciência deste fato em seu livro - e esse é o seu primeiro grande mérito.

A crise de nossa sociedade, hoje, é basicamente uma crise epistemológica. O problema educacional é decorrência dessa crise. É isso que procurarei mostrar neste breve Prefácio.

A filosofia foi, e, felizmente, ainda é, considerada por muitos a mais perfeita expressão da racionalidade humana.

No entanto, a razão tem sido freqüentemente utilizada para combater a razão. Dentro da filosofia existe uma corrente irracionalista tão forte que, atravessando os milênios, encontrou, nos séculos XIX e XX um terreno fértil para a sua propagação. É a razão que perdeu o rumo, e que tenta agora demonstrar sua própria fragilidade, argumentando contra si própria...

As principais armas do irracionalismo são o ceticismo e o relativismo.

O ceticismo é, fundamentalmente, a tese de que a verdade e o conhecimento não existem. Só existem pontos de vista, opiniões, crenças, coisas desse tipo. Mas nada disso é verdade, nada disso merece o título de conhecimento. Os pontos de vista que adotamos (se é que adotamos algum) são tão inválidos quanto quaisquer outros e a escolha entre eles é essencialmente arbitrária, descriteriada.

O relativismo é, fundamentalmente, a tese de que a verdade e o conhecimento existem, mas cada época, cada cultura, cada grupo, ou mesmo cada indivíduo, tem a sua verdade e o seu conhecimento. O relativismo, no fundo, afirma que tudo é verdade, se visto no contexto certo. Quaisquer outros pontos de vista são tão válidos quanto os que adotamos, se levarmos em conta o contexto em que foram formulados. O critério de validade aqui existe - mas é o critério do grupo, não um critério universal, que transcenda os particularismos.
Note-se que tanto o ceticismo como o relativismo apelam para sentimentos nobres.

O ceticismo tem sido o principal crítico do dogmatismo e do fanatismo. Como a verdade e o conhecimento não existem, não devemos nos apegar aos nossos ponto de vista (caso os tenhamos): devemos reconhecer a falibilidade de nossas faculdades de conhecimento, e, portanto, evitar qualquer dogmatismo e fanatismo.
Da mesma forma, o ceticismo tem sido o maior defensor da tolerância. Devemos tolerar os pontos de vista dos outros, mesmo os que nos parecem os mais estapafúrdios, porque, embora careçam de fundamento, não estão em pior situação do que nossos próprios pontos de vista.

Igualmente, o ceticismo tem sido, na esfera intelectual, um proponente da modéstia, da humildade, da ausência de soberba, da ausência de arrogância: tudo o que sei, diz o cético, é que nada sei.
Os céticos são, em geral, extremamente simpáticos: haja vista David Hume, escocês cordial, talvez o filósofo mais simpático que já pôs os pés sobre a terra. Revestindo-se desse caráter nobre, o ceticismo conquista as pessoas - e espalha o irracionalismo.

O relativismo também é uma filosofia simpática.

O relativismo procura nos convencer de que os pontos de vista de outras pessoas (ou as de outras épocas, ou de outras culturas, ou de outros grupos) são tão válidos quanto os nossos próprios (ou quanto os pontos de vista de nossa própria época, ou de nossa própria cultura), porque cada grupo (ou, em última instância, cada pessoa) tem seus próprios critérios de validade.

Isso é assim, afirma o relativismo, porque as idéias são geradas em determinados contextos, e adquirem validade somente a partir daquele contexto. É inválido, portanto, criticar um ponto de vista a partir de um contexto que não é o seu próprio. Fazer isso seria argumentar a-historicamente, a partir de uma ótica universalista.

Assim sendo, para o relativista não é válido (por exemplo) criticar o budismo a partir do catolicismo romano, ou, na verdade, criticar qualquer religião, a partir de uma outra, ou mesmo a partir de um ponto de vista ateu. Todas religiões são boas, e até o ateísmo é uma forma de religião, às avessas, igualmente válida.
Por isso, também o relativismo propõe a rejeição do dogmatismo e do fanatismo e a adoção de uma postura tolerante. A arrogância, o sentimento de superioridade de nossos pontos de vista, a falta de empatia para com pontos de vista diferentes, tudo isso é pecado mortal para o relativismo.

Os relativistas também são, em regra, simpáticos. Muitos deles se embrenham por florestas quase virgens para estudar pontos de vista e costumes que os demais mortais poderiam considerar primitivos. Para o relativista, não há superior e inferior, quanto se trata de idéias, de pontos de vista, de cultura, enfim. Assim, o multiculturalismo relativista é atraente, para muitos, porque parece cosmopolita, anti-eurocêntrico.
Revestindo-se desse caráter nobre, o relativismo também conquista as pessoas - e espalha o irracionalismo.
Na verdade, a maior parte das pessoas adota, hoje, uma mistura de ceticismo e relativismo, sem distinguir bem entre eles.

É por isso que o irracionalismo é hoje moda. Se a verdade e o conhecimento não existem, ou se tudo é verdade e conhecimento, então não há como ser racional. Por que adotar este - e não aquele - ponto de vista? Por que pronunciar este - e não aquele - julgamento moral? Porque preferir esta - e não aquela - obra de arte?

Na inexistência de critérios, não temos mais a confiança para falar no verdadeiro, no bom, no belo.
Nesse clima, ousar defender a razão é ficar aberto a críticas virulentas e correr o risco de ser ridicularizado pelos que se rotulam de pós-modernos (imaginando que a modernidade teria se caracterizado pela defesa da razão). O educador que não se deixa convencer pelas baboseiras que se escrevem para tentar provar que não existem critérios que nos permitam determinar o que é verdadeiro, o que é moralmente certo, o que é belo, se encontra diante de sérios desafios. Porque, se a tese cética ou relativista é verdadeira (?), não haveria como pensar em uma educação de cunho universal: só se poderia falar em educação no contexto restrito dos grupos, das classes sociais, dos "gêneros" (eufemismo para sexos), das orientações sexuais... Não se educa mais o ser humano: educa-se a mulher pobre com orientação heterossexual, ou o homem rico com preferências homossexuais... E educar não significa mais buscar sentidos universais na experiência humana, mas o sentido de uma experiência particularista, mediada pelo grupo, que os que convivem em outros "coletivos" não saberiam entender. Os paradigmas são incomensuráveis, verdadeiros (?) casulos que nos envolvem e nos impedem até mesmo de suspeitar que existam outros casulos (exceto para os privilegiados que, como Karl Mannheim, parecem ser capazes de transcender isso tudo e olhar um universo de casulos de cima, sub specie aeternitatis, alcançando a visão do todo...). 

Por isso a nossa é uma época em que se tornou lugar comum afirmar que a verdade não existe ou é relativa; em que amplamente se acredita que, se duas pessoas discordam, isso significa apenas que a verdade de uma é diferente da verdade da outra; em que cientistas defendem a tese de que as teorias científicas nada mais são do que paradigmas semelhantes a dogmas religiosos (em relação aos quais já é costume dizer que todos são bons, desde que adotados com sinceridade); em que teorias e filosofias políticas são vistas como nada mais do que ideologias em conflito, reflexos superestruturais de infra-estruturas econômicas alternativas, cada uma privilegiando determinadas classes, acerca das quais não cabe levantar a questão da verdade; em que a moralidade se tornou uma questão de preferência e gosto, levando até um homem da estatura moral de Bertrand Russell a afirmar que sua discordância básica com Hitler se reduzia ao fato de que ele não gostava do que Hitler fazia; em que as linhas demarcatórias entre a arte, de um lado, e, de outro, borrões, ferro velho, lixo e outras excrescências desapareceram, porque as pessoas têm medo de emitir um juízo estético; em que interpretações de um texto, por mais intuitivas e estapafúrdias que sejam (porque, afinal de contas, quem escreve o texto é o leitor...), são acolhidas com a mesma seriedade que as decorrentes de trabalho exegético e hermenêutico sério e rigoroso; em que auto-expressão se tornou sinônimo de criatividade; em que os contra-sugestionáveis são tidos como espíritos críticos, ou, pior, em que alguns dos piores dogmatismos se rotulam de abordagem crítica; em que a noção de verdade, por fim, se admitida, é vista apenas em termos da coerência de um conjunto de enunciados, e não de sua correspondência com a realidade.

Longe de mim imaginar que Arnaldo Niskier concorde com tudo o que digo aqui - ou com o que está por trás do que estou dizendo aqui. Mas estou certo de que ele concorda que a discussão dessas questões é de importância suprema para o educador que deseja fazer o seu trabalho com consciência e seriedade e que não vê a educação apenas como mais um cenário em que se processa a luta política e, pior, partidária. Por isso Arnaldo Niskier escreveu seu livro. Um livro que merece ser lido e que deve ser objeto de séria reflexão por todos os educadores (e não só por filósofos), pois, além de tudo, tem, ainda, o mérito de ser bem escrito - em linguagem clara, incisiva, e acessível ao não filósofo.

Em Salto, 1º de Março de 2006 [Texto originalmente escrito em 25 de dezembro de 2000]

Digital libraries


I) The Importance of the Theme

There is reasonable consensus, today, among educators that education is not primarily a process of transmitting information from teachers to students.

In the context of the academic education (the education that takes place in schools), students have, today, access to more information than was ever the case – in some areas, they have more information on a given subject than their average teachers do.

In this context, teachers should, in the cognitive realm, concentrate their attention on how students could learn to correctly analyze, critically evaluate and adequately apply information. And, outside the strictly cognitive realm, teachers should be responsible for motivating the students and helping them manage the important emotional and interpersonal variables that affect learning and, eventually, other kinds of performance, in general.

In summary, the established view seems to be, today, that teachers should be facilitators of learning and “personal coaches”, rather than transmitters of information.

But if this is so, are we going to leave the question of access to information to the spontaneous initiative of users (in this case, students) – or is there a way of systematic way of approaching the subject in an educational context?

I propose here that the issue of Digital Libraries opens up to us an entirely new field of research and study in the educational arena. If the teacher in classroom is no longer going to concentrate his efforts on transmitting information, we must be reasonably confident that there will be sources of information – especially of information in a computer-readable format – that are reliable and easy to access. Digital Libraries could be the most important of these sources. In academic contexts, therefore, the issue of Digital Libraries should rapidly come to the center of discussion at present, especially given the enormous interest in distance education.

There is, therefore, a narrow connection between this theme, which I now propose for discussion, and the theme that was discussed before: e-learning.


II) The Concept: The Nature of a Digital Library

The discussion of Digital Libraries must begin by sharply distinguishing Digital Libraries from Electronic (or Online) Library Catalogues. Library Catalogues contain only “metadata”, that is, information about information: in the case, information about the exact title, the name of the authors and the date and place of publication (or equivalent) of an information object (books, periodicals, paintings, photographs, records, tapes, etc.) and, of course, about where it is to be found in physical space. Digital Libraries, on the other hand, must contain the information objects themselves (together with information on how they can be accessed).

Once this is clear, one can ask how best to define a Digital Library.

There are two basic ways of understanding Digital Libraries.

The first (what I call here “the minimal sense definition”) conceives Digital Libraries in a rather broad sense, allowing many things to be considered Digital Libraries.

The second (what I call here the “maximal sense definition) includes many requirements for something to be called a Digital Library, conceiving Digital Libraries in a rather narrow sense.

It may seem strange to say that a “minimal” sense definition is broad and that a “maximal sense” definition is narrow – but this is exactly the case. The fewer requirements are included in a definition, the broader it becomes; the more requirements are included in a definitio, the narrower it becomes.

If we minimally define a table as “any flat surface people use to lay things on”, the definition will be very broad (more more things will be covered by the concept than we normally allow under it). If, however, we maximally define table as “a piece of furniture, consisting of a flat surface of wood, stone, glass or metal, sustained by a certain number of props (usually four), normally used for eating, writing or otherwise for simply holding objects”, the definition will be much narrower (probably fewer things will be covered by the concept than we normally allow under it).


1) Minimal Sense Definition

In the minimal sense definition, a Digital Library is broadly defined as simply an organized collection of information in computer-readable format.

As I have just observed, this minimal sense definition of a Digital Library allows us to place under the concept of Digital Library a good many things that we normally do not consider a library.

In the first place, according to this definition, a Digital Library may comprise not only readable material (texts in books, periodicals and newspapers), but also viewable material (images, still or in movement) and listenable material (sounds of various sorts).

In the second place, any CD-ROM, or even audio CD, should be considered a Digital Library. The same is true of any site in the Web.

The first Digital Library (in this minimal sense) I interacted with was a CD-ROM called Microsoft Bookshelf, which I got in 1987, with my first CD-ROM drive. It contained (if I remember well) an encyclopedia, an almanac, a dictionary, a book of quotations, and a few other things. As the title of the product indicated (Microsoft Bookshelf), it was a shelf of computer-readable books in a Digital Library – or a mini Digital Library in itself.

Soon thereafter, many such libraries appeared on the market, helping make of the CD-ROM a mass product (the “modern papyrus”, as a book called it).

In this minimal sense definition, a CD-ROM containing the “Great Books of the Western World”, or a CD-ROM containing reproductions of van Gogh’s paintings, or even an audio CD containing some of Jennifer Lopez’es songs, could all be said to contain Digital Libraries.

The various web sites available to us in the Internet would each contain a Digital Library of sorts, since each of them would be an organized collection of information in computer-readable format. The World-Wide Web, as such, would be a digital hyper-library: a library of Digital Libraries.

(Strictly speaking, the CD-ROMs, CDs, or sites, would not BE, themselves, the libraries: they would CONTAIN them. In the conventional sense, a building is not, in the strictest sense, a library: it contains it. [It is true that most of us would say that a printed book IS a book, not that it CONTAINS a book – but the discussion of this issue would involve us in a rather refined philosophical discussion of what a book essentially is, that would not be appropriate here]).


2) Maximal Sense Definition

Others, however, have defined a Digital Library as something considerably more grandiose. Here is, for instance, in three paragraphs, what Christos Nikolaou, Program Chair of the Second European Conference on Research and Advanced Technology for Digital Libraries, that took place in 1998, in Greece, said in his Opening Remarks:

“A Digital Library constitutes a quantum quality leap over a simple electronic collection of books and journals. It is an active super-entity composed of active or passive information objects that live scattered around the world and are accessible through the World-Wide Web. Examples of such information objects are: documents in digital form together with their readers’annotations and the responses of their creators; sounds and pictures – moving or still – with their descriptions and their annotations; programs with their animation graphics and sample inputs for experimentation; collaboration environments for research . . . or entertainment. . . .

A Digital Library acts as an agent for both humans and information objects in cyberspace. The creators of the information objects can entrust their creations to the Digital Library, which safeguards their authenticity, protects them from plagiarism, and ensures their promotion and evolution as conceptual artifacts that interact with others in the world. The Digital Library informs all entities, human or otherwise, about the information objects that it supports. It negotiates and enters into contractual agreements with other Digital Libraries for the exchange of access rights to objects.

This drastically new understanding of libraries is expected to have a dramatic social and economic impact worldwide. Creators’ intellectual property rights, publishers’ commercial rights, the very nature of publishing, citizens’ access rights, the nature of the public library and the museum are some of the areas that are being reexamined and redefined. The enforcement of the access rights of the citizens of the emerging Information Society becomes paramount, through access techniques tailored to the individual needs, capabilities, dexterities and requirements of the users”.

(http://www.ics.forth.gr/2EuroDL/press_en.html).

I fear that this definition is so ambitious as to become almost useless. We may have to find our way somewhere between the minimal sense definition, mentioned first, and this maximal sense definition.


3) The demarcation of a library from other libraries

If we want to avoid trivializing the concept of a Digital Library (and, therefore, leave outside the scope of a Digital Library a CD of Jennifer Lopez’es songs...) we must make the concept a little more substantive. I propose to start doing so by investigating what demarcates a physical library from other physical libraries.


A) Organization / Classification Principles and Access Mechanisms

What demarcates a conventional library from other libraries is, in the first place, not so much the fact that its contents are all housed in a single place (for very large conventional libraries, today, most often they are not), but the fact that all of its contents are organized (classified) according to, basically, the same principles and are made available to the user through, basically, the same access mechanism (what we might call “the library catalogue”).

If we take only this criterion into account, the CD-ROMs and CD mentioned above  would not constitute a single Digital Library, but, at best, three different Digital Libraries, since they are not organized according to the same principles and are not accessible by the user through the same access mechanism (each one has its own Table of Contents and Index.

The entire content of the World-Wide Web would not be a single Digital Library either, because it is not organized (classified) under the same principles and it is not made available to users through a single access mechanism. The search engines that are available today for the Internet do not give us an integrated and organized view of what is available on the Internet. To some extent it is questionable that this kind of integrated and organized view of the Internet’s content will ever be available.


B) Institutional Identity

What demarcates a conventional library from other libraries is, in the second place, what we might call its institutional identity. A library is not a mere collection of information even if this collection stands under clear and well-defined organization (classification) principles and is made available to users from a single access mechanism. A library is an institution – or has a clear affiliation to an institution.

Sometimes the organizational model is not so straightforward, but the institutional affiliation is no less clear because of that. In the institution in which I work (the State University of Campinas [UNICAMP], in Campinas, SP, Brazil), for instance, each academic unit has its own library – which sometimes may even have its own name (the Library of the School of Education is named “Library Prof. Joel Martins”). Each of the libraries has its own librarian and technical and support personnel, is physically housed in a different place, and has its own Internet site (so you can directly enter it from the Internet). So, each one is a different library. All of the libraries, however, follow a common set of rules, share a common book and periodical database (called “Acervus” in the case of books) and have a central purchasing agency. The unit which is responsible for these things also holds the special collections of the University and has its own collection of basic and reference books, and is called the “The Central Library” (from which, on the Internet, you can access the others). The collection of all libraries is called “The UNICAMP Library System”. See, for instance, the site of The Central Library at  http://www.unicamp.br/bc/ and the site of the Library Prof. Joel Martins, of the School of Education, which calls itself a “Virtual Library” (because it has [as do the others] an online catalogue) at http://www.bibli.fae.unicamp.br/index.html.

The conclusions to draw from this second criterion of demarcation between libraries are:

(a)   The library is an institution, and, as such, has an administration and a technical and a support team;

(b)   The library not only makes information available to the user: its staff is there to help users find the information they need, to suggest sources of information of which they may not be aware, to do bibliographic searches for them, etc.


C) Digital Libraries

Applying what we have just seen, in this short analysis of physical libraries, to Digital Libraries, we should conclude that the “minimal sense definition” of Digital Library with which we initiated this chapter (Section 1) is not totally adequate.

 

The second demarcation criterion we have just outlined (Section 3, Subsection B) allows us to argue that CD-ROMs and CDs containing computer-readable texts, images and sounds should not be considered, as such, Digital Libraries – although they could, conceivably, be a part of them or be contained in them.


4) Data (Information) and Metadata

An important although obvious observation must be inserted here: analogously to physical libraries, Digital Libraries contain not only data or information as such, but also data about these data, or information about this information (what is often called metadata). Information about its organization (classification) system (how the records are composed, what their fields are, etc.) and, specifically, about where each piece of information is located would clearly be examples of metadata, not of information itself.

The reason why a physical library that has only an online catalogue, which lets one know where each book can be physically located, etc., should not be considered a Digital Library lies here: this kind of library has, really, no computer-readable content, no digital data, but only metadata. In a Digital Library one must be able not only to locate books, periodicals and other information objects with the help of a computer (using the metadata its catalogue contains) but also to have full access to computer-readable, digital information.


5) A suggested definition

From these considerations we could perhaps conclude that a Digital Library is an institution that maintains collections of computer-readable information that stand under clear and well-defined organization (classification) principles and that can be made available to users from a single access mechanism.


6) Encyclopaedias and Digital Libraries

To conclude this chapter, and make the concept of a Digital Library still clearer, I would like to ask whether a digital encyclopedia (such as Encarta, or even The Britannica Online) could be considered a Digital Library.

To some extent, yes, because in these cases there is an institution that is clearly identified as responsible for the collection of digital information contained in it: an editorial board, for instance. This gives them a reasonably clear organizational identity.

On the other hand, although these encyclopedias do contain help and other mechanisms designed to assist the user interested in them, they do not contain, as far as I can perceive, mechanisms that could be considered equivalent to librarians and technical support personnel of physical libraries.

But there is still another difference to which I want to call attention.

It seems to me that one of the main differences between an encyclopedia (digital or not) and a library is that the content of a given volume in a library may grow out-of-date and become obsolete and yet still legitimately remain in the library, whereas content that grows out-of-date and becomes obsolete in an encyclopedia normally is quickly removed or replaced by more current and upto-date information.

Also, a Digital Library is something that has, and should have, considerably more permanence than an individual encyclopedia. It could, even, include various editions of a given encyclopedia – presumably even all. The life span of a modern encyclopedia is short – it begins to be out-of-date even before it is released. The life span of a library (digital or not) is endless. If the Library of Alexandria were still with us we would still be using it. It is possible to always add to it, but its contents should not be replaced or corrected – even if they are in error!

We could put this in a different form. An encyclopedia is a product to be sold. A library – even a digital one -- is an institution (even if it belongs to another, larger institution). Its construction requires long-term commitment. It is not a product for renewed consumption.


7) Main Challenges

In the following chapters I will discuss what seem to me to be the two basic challenges to those considering the institution (creation, implantation) of Digital Libraries:

What to put in Digital Libraries? (Chapter II)

How to access and to exhibit what is in a Digital Library? (Chapter III)

The following observation, found in the URL http://csdl.tamu.edu/DL95/papers/graham/graham.html, is compatible with what I have been trying to say:

“A Digital Research Library is a collection of electronic information organized for use in the long term. To meet user needs, the founders of a DRL must accomplish two general tasks: establishing the repository of electronic scholarly materials, and implementing the tools to use it. More important, long-term commitments are needed if scholarly information is to be available over periods longer than human life: organizational commitments, fiscal commitments and institutional commitments.”


III) The Scope: What Should Be in Digital Libraries


1) What should be in a Digital Library?

The simple, non-realistic answer, in principle, is: anything people may want to preserve for later use, by themselves or others, and that is, or can be placed in, computer-readable format.

A more realistic answer would be: every book or periodical (magazine, newspaper) or related material (such as projects, proposals, reports, etc.) that can be found in computer-readable format. Besides text, photographs, drawings, graphs, blueprints, sketches (croquis), maps, as well as videos and films of various natures, that are in computer-readable format. And, finally, digital recordings (films, events [such as concerts], conferences, lectures, etc.).

The second answer preserves continuity of scope between Digital Libraries and physical libraries. The first answer, if followed consistently, will eventually make Digital Libraries something much bigger than, and considerably different from, physical libraries.


2) Present Efforts

An enormous effort is at present underway to build Digital Libraries in governmental agencies, universities, non-profit organizations and commercial enterprises. Most of the time, these efforts follow along the lines of preserving continuity of scope between digital and physical libraries.

As for governmental agencies, special reference must be made to the Digital Libraries Initiative (http://memory.loc.gov/ammem/dli2/), now in its Phase 2, which includes The Library of Congress (LOC), and the Libraries of the National Science Foundation (NSF), the Defense Advanced Research Projects Agency (DARPA), the National Library of Medicine (NLM), the National Aeronautics and Space Administration (NASA), and the National Endowment for the Humanities (NEH).

As for universities, reference should be made to the efforts of the Carnegie-Melon University, of Pittsburgh (The Universal Library [http://www.ulib.org/]); of the University of Pennsylvania, of Philadelphia (The Digital Library [http://digital.library.upenn.edu/]); and of the University of Texas (The University of Texas Library Onlie [http://www.lib.utexas.edu/Libs/PCL/Etext.html]).

The oldest and best known non-profit initiative in this area is the Project Gutenberg (http://www.gutenberg.net), created in 1971 by Michael Hart, which completes 30 years this year.

As for commercial initiatives, one of the most interesting is the Intelex Corporation (http://www.nlx.com).

The examples are by no means meant to be exhaustive.


3) Criteria for Determining what should be in Local Computers

Criteria will have to be devised to determine what an institution should make an effort to keep on its own servers (if it can) and what it can rely to find on external servers. This is often a delicate questions, for reliance on outside sources can be often disappointing, since these sources may go out of business, may stop making available the information, may change the address of the servers, etc.


4) New Scope for Digital Libraries

Here I would like to suggest that Digital Libraries should contain much more than the type of material which today is stored in physical library (breaking, I think, the continuity of scope between digital and physical libraries to which I called attention at the beginning of this chapter [Section 1]).

Here it suffices to say that things are stored in a Digital Library normally in the format in which they were first produced.

The question of the format in which the information is made available will be discussed in the following item.


IV) The Format: How to Store? How to Exhibit?


1) Format and Formats

To say that an information is in computer-readable format means nothing beyond the fact that a computer can read that information. For any type of information (text, image or sound) there are several standards for coding information in computer-readable format – and these coding standards are also called formats.

A text may be in pure (7-bit) ASCII, doc, rtf or pdf format; a picture may be in bmp, cdr, mix, jpg, or gif format; a movie may be in mpg, or avi, or quick time, or real media, format; a sound may be in wav, midi, mp3, or CD format – and so on. These are all formats that the computer, in principle, can read. In pratice, we need software to manage these different formats and to present to us a readable text, a viewable image, a listenable tune.


2) Format for Storage and Format for Exhibition

As a rule, information is presented to us today in the format in which it is stored – and it is stored in the format in which it was first produced.

This, however, is seldom a satisfactory solution. The way the content is presented should be determined by the client system in conversation with the front-end layer of the server system.


3) Middleware

Here we have a technical issue that must be faced and solved, possibly through the creation of some sort of middleware that will stand between the document stored in the server and its exhibition by the client computer. (If there is no impediment for the document to be re-saved in the client computer, it must be decided whether it should be re-saved in the format in which it is originally stored or in the format in which the user chose to view it).


4) Suggestion for Text Format

There is no reason to ellaborate in detail on this issue (for textual material). I should only state my position, which is that of most people who have suffered through this issue for many years, ever since the time of DOS and UNIX: Distribute text in "Plain Vanilla ASCII," meaning the low set (7-bit) of the American Standard Code for Information Interchange. This is what Project Gutenberg does.


5) Two Problems

The questions to be raised are basically two, of which the first is the lesser one:

a) How to show special emphasis (italics, bold, underline)?

b) How to deal with accented and other special characters that are essential to languages other than English?


6) Special Emphases

Special emphases can always be indicated by some convention (<italics>, =bold=, _underline_, etc.). Formatting should be added to the document by a style sheet and should be easily removed.


7) Non-English Characters

Accented and other special characters have, to a large extent, been received adequate treatment by Microsoft, but the many possible configurations that a Windows machine can now have make it difficult for two machines to communicate sensibly. Effort should be make to include non-Windows systems into the chosen standards.

Standards should be developed for converting a .doc, .rtf or .pdf textual document into plain Vanilla text, and vice-versa, more or less the same way that a bmp picture can be converted into a gif or jpg format. 


8) E-Mail

E-mail messages should all be sent in plain Vanilla text, or, then, as attachments. E-mail messages should have no special formatting and should be accessable individually as pure text objects that will include header information (TO, FROM, Date, Subject only).


V) Challenges


1) Some Important Challenges

  • Property Rights vs Right of Access

  • Privacy and the Right to Know

  • Indexing and Formatting

  • Interoperability between Digital Library Systems

  • Metadata

  • Multilingual Information Handling


2) A Great Challenge

  • Annotations


3) A Great Challenge

As far as textual material goes, of course, books and periodicals (maganizes and newspapers) will occupy, for a time, a major portion of Digital Libraries. Texts that never see the light of day in book form, such as projects, proposals, reports, will also be present there. However, the big challenge is what to do with texts of a more informal nature, such as letters, memoranda, rough drafts, “post it notes”, entries in address and appointment books, meeting agendas and minutes – shall of this go into the Digital Library?

Besides text, photographs, drawings, graphs, blueprints, sketches (croquis), maps, as well as videos and films of various natures (including the various recordings of security cameras, television commercials, etc.), will also occupy another major portion of the library. And, finally, digital recordings of telephone conversations, of answering machines and of voice-mail messages, audio recordings of conferences, lectures, training sessions, discussions, chats, etc., will also be there (perhaps both as sound elements and as text transcripts).

Novel information objects: Artificial Reality

Each conventional institution will probably have one or more Digital Libraries where it will record its collective memory, thus perpetuating, and making available to interested parties, the information and knowledge it accumulated during its life.

Obviously, someone will decide (who?) that some types of information will be automatically stored: accounting and book-keeping information, records of commercial transactions, contracts, projects, reports, agendas and minutes of top managerial meetings, personnel data, etc. Other types of information may only be saved if connected to something else that was important: telephone logs, security logs, logs of visits to the plant, etc. But what about e-mail, voice-mail, logs of discussion groups, logs of customer support contacts and complaints, etc? And will all the different versions of a document be kept, with a record of who suggested what change, or will only the final version be preserved?

Someone will have to decide what sort of information is to be preserved inside the Digital Library and what sort of information may be left out to perish. This raises the serious issue of control.

And even if everything is preserved, who will be authorized to look at it? Will there be policies of “classification” and “declassification” of information? Once again the issue of control emerges.

So I don’t quite agree with Prof. Christos Nikolaou when he says that 

“. . . a Digital Library acts as an agent for both humans and information objects in cyberspace. The creators of the information objects can entrust their creations to the Digital Library, which safeguards their authenticity, protects them from plagiarism, and ensures their promotion and evolution as conceptual artifacts that interact with others in the world. The Digital Library informs all entities, human or otherwise, about the information objects that it supports. It negotiates and enters into contractual agreements with other Digital Libraries for the exchange of access rights to objects.”

These controls, it seems to me, will have to be implemented and executed by humans.

Since this meeting is geared toward education, if I will try to illustrate with, without proper controls, what a monster a Digital Library might become in the case of a university.

A full-fledged academic Digital Library would certainly contain information about students, courses and professors.

Someone with the right credentials would find out who studies there and who teaches there, what sort of academic program or course they are taking and teaching, what is being covered and required in each of these programs or courses, what readings are required and recommended, etc.

As far as student life goes, he would be able to see all the courses a given student has taken, how well or how bad he did in the course, what his attendance record was, about what he wrote his term papers (if required), and even the full text of the term papers themselves (or even of his examinations, if taken online – something that is going to be more and more likely in the future). He would also have access to activities in which the student engaged  (athletics, theater club, school newspaper, political clubs, etc. etc.).

He would also be able to see (if duly authorized, of course) the record of the professors: where they obtained their titles, when they were hired, where they worked before that, how much they earned, what courses they taught, what they wrote, in which committees they participated, what other activities they had outside the classroom, if they were involved in academic associations, in research contracts, in consulting, in political organizations. He would also be able to see the full text of all the publications, conferences, speeches and interviews of the faculty.

Faculty and student papers would all be immediately added to the online content of the Library.

What about administrative data? Records of things bought and allocated for use. Records of travel expenses. Records of utilities expenses.

Also: In this process it will have to be defined whether only finished products will be stored in the Digital Library or whether all the versions should be kept together with a record of changes.

Em Salto, 1º de Março de 2006 (revisão de um texto escrito em 1º de Março de 2001, cinco anos atrás. O texto, infelizmente, continua inacabado)

As fontes de nossos direitos

Gostaria de voltar à carga acerca da questão dos direitos, que já comentei algumas vezes.

Direitos são correlatos de deveres. Se eu tenho um direito, alguém tem o dever de me garantir esse direito (negativa ou positivamente - mais sobre isso adiante, depois de discutir o que chamei de tipos de direito).

Na minha forma de ver, há três tipos de direitos - no que diz respeito a sua fonte: direitos contratuais, direitos legais, e direitos naturais. Em outras palavras: se considerarmos a fonte geradora do direito, eles podem ser classificados em três grandes categorias (e, assim me parece, apenas em três).

Vou rapidamente comenta-los.


A. Direitos Contratuais

Se eu e você assinamos um contrato, mediante o qual eu me comprometo a lhe prestar um serviço (digamos, construir uma casa para você), nas condições especificadas, e você se compromete a me pagar um certo valor pelo meu serviço, novamente nas condições especificadas, então:

a) você tem o direito de ter uma casa construída por mim e eu tenho o dever de construir uma casa para você;

b) construída a casa, eu tenho o direito de receber o pagamento combinado e você tem o dever de efetua-lo.

Note-se que, na ausência desse contrato, esses direitos e deveres inexistem. Eles são gerados pelo contrato.

Note-se também que, uma vez assinado o contrato, o seu direito de que eu lhe construa uma casa é, de certo modo absoluto: eu tenho o dever incondicional de lhe construir a casa. O meu direito de receber o pagamento é, porem, condicional: se eu não construir a casa, conforme as especificações, o meu direito de receber o pagamento, e o seu dever de efetua-lo, desaparecem.

Esses são os direitos contratuais. Eles não subsistem sem contrato e, com contrato, eles obrigam apenas as partes signatárias do contrato.


B. Direitos Legais

Direitos legais são aqueles previstos em lei (e ate mesmo na Constituição). Eles se aplicam a toda uma categoria de pessoas, as vezes toda a população, independentemente de assinatura de contrato, meramente por estarem previstos em lei.

A lei brasileira dá aos trabalhadores o direito de ter descanso semanal remunerado. Esse direito se aplica apenas aos trabalhadores. Como a todo direito corresponde um dever, esse direito tem, como correlato, o dever, por parte dos empregadores, de garantir esse descanso semanal e de remunera-lo.

Aqui já começa a ficar clara a distinção entre direitos e deveres positivos (substantivos) e negativos (formais). O direito ao descanso semanal poderia ser apenas um direito negativo - nenhum empregador poderia impedi-lo de tirar um dia de folga por semana no seu trabalho. E um direito também positivo porque o descanso semanal é remunerado. Assim, o empregador não só tem o dever de não impedir você de tirar um dia de folga por semana (dever negativo, formal), ele também tem o dever de remunerar você por esse dia de descanso como se você tivesse trabalhado (dever positivo, substantivo).

O direito negativo ou formal é o direito de fazer alguma coisa sem que ninguém impeça. O dever negativo ou formal é o dever de não impedir alguém de exercer o seu direito negativo.

O direito positivo ou substantivo implica a garantia de recebimento de alguma coisa de outrem. O dever positivo ou substantivo implica a necessidade de prover alguma coisa a outrem para que este possa usufruir o seu direito positivo.

Assim, o direito, garantido na nossa Constituição, à educação é um direito positivo ou substantivo. Ele implica a garantia à população de escolarização gratuita (educação básica). (A escolarização tem de ser gratuita porque alguns dos titulares desse direito podem não ter como pagar por ela. Ainda que tivessem como pagar, o fato de a educação ser um direito lhes garantiria que alguém - no vaso, o estado ou o governo - teria o dever de garantir o exercício desse direito.) Por isso, a esse direito corresponde o dever positivo ou substantivo, por parte do estado ou do governo, de dar à população a educação a que ela tem direito, nos termos da Constituição.


C. Direitos Naturais

Num determinado momento na história da humanidade algumas pessoas propuseram a idéia de que o ser humano teria alguns direitos que independeriam de reconhecimento por parte de alguma legislação. Esses direitos seriam naturais, porque seriam inerentes a própria condição humana. Sendo naturais, também seriam inalienáveis, isto e, irremovíveis e imprescritíveis. Se alguma legislação procurasse remove-los, essa legislação seria declarada contrária ao direito natural (jus naturalis).

Os dois principais direitos naturais invocados foram o direito à vida (este incluindo o direito à segurança e à integridade física da própria pessoa), o direito à liberdade (este incluindo o direito de opinião e de expressão, bem como os direitos de associação e de locomoção [ir-e-vir], que garantiriam que todos poderiam exprimir seja lá o que fosse que pensassem e viver se lá como fosse que desejassem), e o direito à propriedade (o direito de a pessoa fazer o que bem desejar com os frutos de seu trabalho).

Esses direitos sempre foram concebidos como negativos: todas as outras pessoas e todas as instituições (inclusive o estado ou o governo) têm o dever de não colocar a minha vida, a minha segurança e a minha integridade física em risco, de não me impedir de pensar e dizer o que queira e de viver como eu queira, nem, tampouco, de fazer o haja por bem com os frutos do meu trabalho.

Freqüentemente os proponentes da tese dos direitos naturais escreveram como se os direitos naturais fossem alguma coisa quase que biológica ou até mesmo cósmica. Uns dizem que nascemos livres. Outros dizem que Deus nos criou livres. Isso é apenas uma maneira de dizer. O que a tese dos direitos naturais afirma é que devemos operar com base no pressuposto de que temos certos direitos que são irremovíveis, inalienáveis, imprescritíveis, e que, portanto, nem mesmo a legislação maior de um país pode remove-los de nós.

Sendo a vida um direito natural, ninguém tem pode ter o direito de nos tirar a vida - exceto nós mesmos.

Sendo a liberdade um direito natural, ninguém pode ter o direito de nos privar dela, em qualquer de suas manifestações.

Sendo a propriedade um direito natural, ninguém pode ter o direito de desapropriar os nossos bens. 

Se se aceitam esses direitos, como se justifica, no caso do direito à vida, a eventual instituição da pena de morte, no caso do direito à liberdade, a instituição generalizada de penas que envolvem encarceramento, e, no caso do direito à propriedade, vários mecanismos que permitem, em condições especificadas, a desapropriação, por parte do estado ou do governo, de nossos bens? 

Comecemos com o encarceramento.

O estado ou o governo é visto, nesse contexto, como o garantidor dos direitos dos cidadãos - dos direitos naturais, dos direitos legais complementares, e até mesmo dos direitos livremente assumidos por outrem através de contratos.

Se alguém viola, ou coloca em perigo, esses direitos da população (em especial os direitos naturais), o estado ou o governo teria não só o direito como o dever de restringir temporariamente a liberdade desse individuo, para proteger e garantir os direitos da população. Restringindo-se assim a liberdade de uns poucos preserva-se o direito a liberdade de todos os demais.

No tocante à pena de morte, algumas sociedades concluíram, em um determinado momento, que algumas violações dos direitos naturais (em especial do direito à vida) são tão odientas (hediondas) e injustificáveis que quem as perpetra merece ter o seu direito a vida definitivamente extinto (posto que não dá para restringi-lo ou suspende-lo temporariamente). Pode-se não concordar com essa postura, mas o raciocínio e basicamente esse. Extinguindo-se assim o direito à vida de uns poucos que violam esse direito dos demais, preserva-se o direito à vida de todos os outros.

No tocante à desapropriação de bens, estados democráticos procuram cuidar de que só aconteçam em casos extremos, mediante processo em que a vítima tem plenas condições de contestar, e, caso a decisão seja pela desapropriação, que ela seja feita com a devida compensação em preços de mercado.

A Constituição Brasileira exclui uma qualificação ou restrição injustificável ao direito à propriedade. Segundo a ela, o direito existe se a propriedade cumpre sua "função social" - uma das muitas besteiras esquerdizantes.


o O o

Não consigo imaginar nenhuma outra fonte de direitos. Como disse, este é um esboço de um tratamento filosófico ou sistemático da questão dos direitos. Não é um tratamento histórico, que discute como e que surgiu a noção de direito, a quem se aplicava originalmente, como é que evoluiu historicamente, etc. O tratamento filosófico da questão não invalida o tratamento histórico, nem vice-versa.

Em Salto, 1º de março de 2006


O desafio da educação moral

A educação moral talvez seja uma das áreas mais complexas da educação, porque envolve pelo menos três planos ou aspectos distintos:

  • Plano Cognitivo: saber o que é moralmente certo, o que é moralmente errado, e o que é moralmente neutro;

  • Plano Conativo: desejar fazer o que é moralmente certo e desejar não fazer o que é moralmente errado;

  • Plano Ativo: fazer o que é moralmente certo e não fazer o que é moralmente errado.

Que cada um desses planos é condição necessária (mas não suficiente) para o seguinte me parece claro, embora possa ser questionado. A ação moral não é moral quando é realizada sem que a pessoa saiba que ela é moralmente certa, e sem que tenha desejado realizá-la. Uma ação realizada "sem querer" (se é que faz sentido falar de ação neste caso) não é uma ação moral.

Tampouco o é uma ação, ainda que desejada, em relação a qual a pessoa não consegue perceber suas implicações morais e a importância, no plano moral, de estar agindo desta forma, e não de outra. Por isso, acredito que cada plano é um pré-requisito do seguinte. Para a ação moral é necessário que os três planos aqui mencionados estejam presentes - os três, juntos, seriam condição suficiente da ação moral.

Quando se fala em