Dezembro de 2005
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cronológica, com os mais recentes em cima.
[4 artigos publicados neste mês]
O problema, já disse várias vezes, não é que o Brasil é um país desigual, como alardeia já no título a matéria abaixo publicada na Folha de hoje. O problema é que o Brasil é um país pobre. O problema é que os 10% mais ricos brasileiros são pobres.
Ou vejamos.
Eis um dos pontos focais da matéria abaixo:
Em 1995, 89% da renda dos 10% mais pobres do Brasil vinha do trabalho (e 11% de atividades não relacionadas ao trabalho). Em 2004, essa porcentagem caiu para 48%, ou seja, mais da metade (52%) da renda do trabalhador mais pobre no Brasil não vinha do trabalho. O principal componente da renda que não vem do trabalho entre os mais pobres foram os programas de transferência de renda
Diz a economista Lena Levinas, em passagem citada na própria matéria:
"O mais grave é verificar que a renda dos mais pobres caiu mesmo com a participação dos programas de governo. Se esses dados forem consistentes, eles mostram que não estamos complementando a renda para os mais pobres viverem melhor, mas gerando uma renda para viverem quase que exclusivamente dela. Estão deixando de ser trabalhadores para se tornarem assistidos. Isso é dramático".
É realmente dramático.
Continua Lena Levinas:
"O pior desenho de política de combate à pobreza que a gente pode ter é justamente esse que condiciona o benefício a um nível de rendimento extremamente baixo. O beneficiado não pode ter mobilidade social porque, se aumentar sua renda, terá que abrir mão da bolsa. Como abrir mão de algo que é permanente para trocá-lo por algo instável?"
É isso.
Quanto mais você dá dinheiro nas mãos do pobre, através de programas que o incentivam a se manter fora do mercado de trabalho, menos inclinado ele se sente a trabalhar.
Em todo lugar do mundo é assim. Nos Estados Unidos, quando o governo resolveu premiar as mães solteiras com uma substancial mesada por filho, elas não pararam mais de ter filhos e começaram a tê-los cada vez mais cedo. E nunca mais trabalharam. Nem se casaram, porque ao casar-se, perderiam o benefício. Seu trabalho passou a ser (desculpem a crudeza) deitar e abrir as pernas.
Se aumentarmos as esmolas governamentais, nesse modelo, em pouco tempo 0% da renda dos mais pobres virá do trabalho. Daí os pobres estarão dependendo 100% do governo -- que é o que o governo quer!
O resultado (que, surpreendentemente, ninguém tira) será que o candidato que prometer não só continuar mas aumentar as mesadas, ganhará os votos dos mais pobres.
Se isso não é compra de votos, não o sei o que possa ser. Tenta-se punir o candidato que oferece transporte ao eleitor no dia da eleição. Mas o governante, candidato à reeleição, que dá dinheiro de mão beijada ao pobre, esperando o seu voto no dia da eleição, esse é elogiado.
O outro ponto focal da matéria abaixo é o seguinte:
De 1995 a 2004 houve queda na renda média também dos 10% mais ricos, que caiu de R$ 4.230 para R$ 3.305.
Impressionante. Os 10% mais ricos do Brasil têm renda média de 3.305,00 -- menos de 10 salários mínimos. Esse dado me preocupa tanto quanto o outro. O Brasil nunca vai ser um país sustentavelmente desenvolvido com esse tipo de renda média dos mais ricos. É ridículo.
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Folha de S. Paulo
25 de dezembro de 2005
BRASIL DESIGUAL
Estudo do Cebrap mostra maior dependência de programas sociais
Pobres se distanciam de ricos e dependem mais do governo
ANTÔNIO GOIS
DA SUCURSAL DO RIO
O processo de exclusão do mercado de trabalho da população extremamente pobre no Brasil se intensificou de 1995 a 2004. Nesse período, o rendimento médio dos trabalhadores que se encontram entre os 10% mais pobres caiu 39,6% ao mesmo tempo em que aumentou a dependência dos programas sociais do governo.
Em 1995, 89% da renda dessa população vinha do trabalho. Em 2004, essa porcentagem caiu para 48%, ou seja, mais da metade da renda do trabalhador mais pobre no Brasil não vinha de sua atividade no mercado de trabalho.
Essas são conclusões de um estudo do sociólogo Álvaro Comin, do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), a partir da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), do IBGE. O trabalho mostra que no extremo oposto, o dos 10% mais ricos, a queda no percentual de renda do trabalho não foi tão intensa: passou de 83% para 77%.
O estudo mostra também que, analisada a partir de seus extremos de riqueza e pobreza, a economia brasileira não parou de produzir desigualdade e a distância entre os 10% mais ricos e os 10% mais pobres aumentou.
De 1995 a 2004 houve queda na renda tanto dos 10% mais ricos quanto na dos 10% mais pobres. No extremo da riqueza, o rendimento médio total dos trabalhadores caiu 21,9%, de R$ 4.230 para R$ 3.305. No outro extremo, a queda foi ainda maior: de R$ 96 para R$ 58, variação de -39,6%.
Por causa da queda maior entre os mais pobres, a distância entre os dois segmentos aumentou. Em 1995, era necessário somar a renda de 44 brasileiros entre os mais pobres para igualar a renda de um mais rico. Em 2004, essa proporção aumentou para 57.
Essa análise da desigualdade nos extremos contrasta com a divulgada no mês passado pelo IBGE, que mostrou que o índice de Gini (que mede a concentração de renda) vêm caindo desde 1993.
Não se trata, porém, de erro de uma ou outra pesquisa. A explicação é que o Gini trabalha com uma média de rendimentos onde há um peso grande no seu cálculo dos estratos intermediários, ou seja, aqueles que não estão nos extremos mais pobres ou mais ricos da população. Foram esses extremos o foco da leitura do Cebrap.
Para Comin, o principal componente da renda que não vem do trabalho entre os mais pobres foram os programas de transferência de renda. Ele afirma que eles desempenharam um papel importante de não deixar que a renda dos mais pobres caísse ainda mais. No entanto, foram insuficientes para alterar de forma estrutural a dinâmica de produção de desigualdade da economia.
Dramático
A economista Lena Lavinas, da UFRJ, ressalvando que não teve acesso ao estudo, afirma que o que os dados do Cebrap revelam de "dramático" é o fato de a inserção mais plena dos mais pobres no mercado de trabalho estar praticamente desaparecendo.
"O mais grave é verificar que a renda dos mais pobres caiu mesmo com a participação dos programas de governo. Se esses dados forem consistentes, eles mostram que não estamos complementando a renda para os mais pobres viverem melhor, mas gerando uma renda para viverem quase que exclusivamente dela. Estão deixando de ser trabalhadores para se tornarem assistidos. Isso é dramático", diz.
A economista defende que, diante desse quadro, é necessário repensar a estrutura do Bolsa-Família: "O pior desenho de política de combate à pobreza que a gente pode ter é justamente essa que condiciona o benefício a um nível de rendimento extremamente baixo. O beneficiado não pode ter mobilidade social porque, se aumentar sua renda, terá que abrir mão da bolsa. Como abrir mão de algo que é permanente para trocá-lo por algo instável?".
O economista Marcio Pochmann, da Unicamp, vê nos dados do Cebrap a confirmação de que a economia passa por um quadro que ele chama de "polarização social", ou seja, de distanciamento da renda dos mais ricos em relação aos mais pobres. "Os programas de transferência de renda são o que é possível fazer numa economia que não cresce de forma sustentada e são compatíveis com os programas de ajuste fiscal. Gasta-se relativamente pouco do PIB com o Bolsa Família, mas faltam recursos para investir em escolas, hospitais e outros serviços públicos que ajudariam de forma mais eficiente essa população a vencer a pobreza e ingressar no mercado de trabalho", diz Pochmann.
Para a economista Sonia Rocha, a tendência de redução de desigualdade (medida pelo IBGE pelo índice de Gini) ainda não é robusta. "Essa redução depende do tipo de crescimento econômico e da oferta e demanda por mão-de-obra qualificada. Com crescimento rápido e insuficiência de oferta de mão-de-obra qualificada, a desigualdade de rendimentos de trabalho tende a aumentar."
Em Salto, 25 de dezembro de 2005
Não tenho religião. Há cerca de 35 anos que me reconheço ateu. Se não acredito em Deus, não posso crer que Jesus seja seu filho - nem reconheço o suposto milagre de ter ele nascido de uma virgem. Logo, segundo alguns, eu não teria razão para comemorar o Natal. Mas o comemoro -- exatamente pela razão que os pios defensores do cristianismo o criticam.
Ainda ontem ouvia a CBN entrevistar um teólogo -- de sobrenome germânico e sotaque típico de padres católicos -- acerca do significado do Natal. Foi a mesma ladainha de sempre: crítica ao "comercialismo" que cerca a festa, crítica ao "presentismo", crítica às ceias elaboradas. Para o teólogo, se se vai dar presentes, deve-se dar um presentinho simples, barato, simbólico -- simbólico do fato de que o presente que Deus nos teria dado no Natal foi dado de graça... (mas será que, mesmo dentro da simbologia cristã, não teria custado nada?). Para o teólogo, se vamos cear (e todos nós temos de comer), devemos optar por uma refeição singela, pouco calórica -- também simbólica da pobreza em que Jesus teria nascido, numa mangedoura...
Todo Natal ouço / leio analistas repetindo essas bobagens.
Quanto a mim, o que acho bonito nessa época é o esforço que as pessoas fazem para se reunir com aqueles a quem amam, o esforço para, pelo menos uma vez no ano, sentarem-se todos ao redor de uma mesa farta, o esforço para presentar aqueles de quem gostam. O Natal é o Dia de Ação de Graças brasileiro -- já que, diferentemente dos irmãos do Norte, não celebramos a quarta quinta-feira de Novembro.
Algum astuto pode perguntar: mas se você é ateu, a quem dar graças?
"Dar graças", na minha sintaxe pessoal, é uma expressão que não precisa ter um destinatário específico -- dispensa, portanto, um objeto transitivo indireto. A expressão representa o nosso reconhecimento de que boa parte do quinhão que nos cabe nessa vida é derivado da sorte. A gente poderia ter nascido no Iraque. Nascemos aqui. Tivemos sorte. A gente poderia ter sido filho de Saddam Hussein. Não fomos. Tivemos sorte. A gente vai atravessar a rua e é quase tolhido por um caminhão em velocidade: mais um passo nosso e estaríamos mortos, mas não demos esse passo. Tivemos sorte. Quem acredita em Deus prefere acreditar, nesse último caso, num pequeno milagre. Eu digo que tivemos sorte.
Muita gente morre num primeiro infarto. Eu tive sorte. Muita gente tem filhos que são vabagundos, drogados, salafrários. Eu tive sorte. Muita gente tem, como Sócrates, uma mulher que o faz preferir tomar cicuta. Eu tive sorte. Muita gente não tem por que, ou com quem, ou com que comemorar o final de mais um ano bem sucedido. Eu tive sorte.
Portanto, tenho muito pelo que dar graças.
Os impertinentes vão dizer que, ao reconhecer o papel da sorte, eu contradigo meu ponto de vista já conhecido de que nosso sucesso na vida depende em grande medida de nosso talento e de nosso esforço. Não creio que me contradiga. Quando afirmo isso, que é algo em que sinceramente acredito, sempre reconheço que há, no sucesso ou no fracasso de nossos projetos de vida, ao lado do talento, ou da falta dele, e do esforço, ou da falta dele, sempre um elemento de sorte -- alguns chamam esse fator de "serendipity", que meu dicionário Inglês - Espanhol traduz como "hallazgo casual beneficioso, hallazgo afortunado, hallazgo no esperado; buena racha". Buena racha é bom...
Passo meu Natal aqui com a família no meu recanto em Salto. Os dias aqui têm sido lindos -- mas terrivelmente quentes. Bons para serem curtidos dentro da piscina, protegidos por um bom filtro solar.
Eu tenho sorte de que posso celebrar a festa de Natal junto aos filhos, aos netos, e, naturalmente, à mulher, companheira de mais de 31 anos. Apenas minha filha e minhas netas que moram nos Estados Unidos não estarão aqui.
Mas elas chegam em aproximadamente três semanas.
Um abraço a todos. Que os presentes lhes agradem e que a comida seja farta e gostosa -- e que o ambiente seja propício à confraternização.
Em Salto, 25 de dezembro de 2005
http://ec.spaces.live.com/blog/cns!511A711AD3EE09AA!971.entry
Entende-se a categoria de nossos julgamentos morais de várias maneiras.
Certamente fazemos julgamentos sobre o que é certo e errado de várias perspectivas. Uma é a perspectiva do costume (é errado namorar três pessoas diferentes ao mesmo tempo); outra é a da lei (é errado dirigir do lado esquerdo numa estrada brasileira de duas mãos); outra é a da etiqueta (é errado falar com a boca cheia); outra é a da moda (é errado ir a uma festa chic usando terno, gravata e tênis).
Mas é um fato quase universal que há certos julgamentos sobre o que é certo e errado que se colocam num plano diferente de todos esses: os julgamentos morais: é errado matar os outros (por exemplo).
Há certos julgamentos sobre o que é certo e errado acerca dos quais temos dúvida sobre que categoria ocupam.
É errado mentir, por exemplo. Certamente é parte do costume da maior parte das culturas considerar a mentira como algo errado, censurável. Mas é moralmente errado? Mentir, durante a Segunda Guerra, para salvar a vida de uma família de judeus que se escondia da Gestapo -- seria algo moralmente errado (ou, pelo contrário, algo eminentemente certo do ponto de vista moral?). A lei brasileira não pune a mentira -- exceto em situações em que a lei exige ou espera que você fale a verdade (você sendo culpado de "falsidade ideológica" se não disser a verdade naquelas situações...).
É errado trair o cônjuge, seria um outro exemplo. Isso é parte do costume apenas ou é uma proibição moral? A lei brasileira não pune mais o adultério como crime.
E assim vai.
Mas interessante do que esses casos de enquadramento difícil é a base de nossos julgamentos morais. Com base em quê julgamos algumas formas de conduta moralmente certas e outras moralmente erradas?
Tradicionalmente, a religião (a Bíblia no caso dos cristãos, ou, em última instância, Deus) era considerada a regra de conduta moral. Se a Bíblia sancionava uma conduta, ela era moralmente certa; se a condenava, era moralmente errada; se não dizia nem sim nem não, a conduta não tinha importe moral (era parte do que se chamava, em grego, adiaphora: o tanto faz como tanto fez). Mas hoje em dia a religião não tem mais tanta importância na vida das pessoas para ocupar essa posição importante. E há religiões diferentes. E há ateus (convictos, como eu, e práticos).
Ainda tradicionalmente, muitos autores têm defendido o ponto de vista de que a sociedade é quem decide o que é certo e o que é errado do ponto de vista moral. Esse ponto de vista, porém, faz com que se perca a distinção entre a moralidade e os costumes. Os relativistas, porém, gostam de adotar esse ponto de vista -- para poder argumentar que o certo e o errado do ponto de vista moral depende das circunstâncias (do tempo e do espaço). Foi essa questão (no artigo da Danuza Leão) que nos trouxe à discussão desse tópico.
Outros autores, como Kant, acham que temos um faculdade, a razão, que nos permite decidir, para qualquer ação contemplada, se é moralmente certa ou moralmente errada. Kant sugeriu um princípio -- a universalização -- para nos ajudar a decidir (princípio esse parecido com a Lei Áurea -- da qual é derivado): uma ação é moralmente certa se, ao executá-la, podemos sinceramente desejar que qualquer pessoa, confrontada com aquelas circunstâncias, fizesse o mesmo.
Ainda outros autores acham que temos um "sentido moral", um tipo de intuição moral, que nos diz o que é moralmente certo e o que é moralmente errado sem que tenhamos de usar nossa razão.
E assim vai.
Eu adoto uma postura chamada de naturalista -- que poucos autores adotam hoje. Para mim a moralidade não é algo imposto por Deus ou pela sociedade. É algo que é derivado de nossa própria condição e natureza humana. Nós, humanos, somos seres não só mortais mas facilmente perecíveis. Porque podemos perdê-la tão facilmente, e porque ela é condição de possibilidade para tudo o mais que queiramos ser ou fazer, nossa vida é o nosso bem maior. Mas a vida nos é um bem não só enquanto sobrevida (sobrevivência à morte) -- mas pelas possibilidades de realização pessoal que ela nos oferece. Podemos escolher o que vamos ser, o que vamos fazer de nossa vida. Temos liberdade de escolha -- e o que vamos ser, o que vamos fazer de nossa vida, depende dessa liberdade.
Parece-me evidente que certas condutas humanas contribuem para a preservação de nossa vida e para a realização de nosso projeto de vida -- e que outras condutas humanas levam para a destruição de nossa vida e para a impossibilitação da realização de nosso projeto de vida. Para mim, a primeira categoria de conduta compreende o que é moralmente certo; a segunda, o que é moralmente errado. O moralmente certo envolve um imperativo categórico de realização pessoal: meu primeiro dever moral é a busca de minha realização, com base em meus valores -- ou, em outras palavras, a minha felicidade.
Sem uma moralidade desse tipo perecemos (em cujo caso tudo se acaba) ou nos tornamos parasitas (que têm de ser cuidados, ou mantidos vivos, por terceiros. Em nenhuma dessas duas hipóteses temos uma realização pessoal com base num projeto de vida construído em cima de nossos valores.
Em Campinas, 5 de dezembro de 2005
Faz hoje um ano que comecei este blog. Mantê-lo atualizado tem sido uma enorme fonte de prazer e satisfação. Agradeço à minha amiga Márcia Teixeira que me chamou a atenção para esse recurso.
Aventura, FL, em 2 de dezembro de 2005
02/09/2006 10:42